O mercado financeiro brasileiro enfrenta uma onda de incertezas e apreensão com a interrupção repentina das atividades da fintech Naskar Gestão de Ativos Ltda, que administra cerca de R$ 900 milhões pertencentes a quase 3 mil clientes. O caso ganhou contornos mais dramáticos nesta sexta-feira, 8 de maio de 2026, com a confirmação de que a empresa abandonou seu endereço de registro na Vila Olímpia, coração financeiro da zona sul de São Paulo. Funcionários do edifício comercial relataram que a gestora se mudou há aproximadamente dez meses, deixando um rastro de dúvidas entre investidores que tentam, sem sucesso, localizar os responsáveis pela operação.
Até o segundo semestre de 2025, a sede da Vila Olímpia abrigava cerca de 20 funcionários que frequentavam o local diariamente em horário comercial. Informações obtidas indicam que a Naskar teria transferido suas operações para a região de Alphaville, na Grande São Paulo, porém essa mudança não foi comunicada oficialmente à sua base de clientes, o que tem sido interpretado como um sinal de alerta por especialistas em segurança patrimonial. A falta de transparência sobre o paradeiro físico da empresa soma-se à dificuldade de contato com seus diretores, que deixaram de atender telefonemas e responder mensagens de aplicativos.
Dados coletados junto à Junta Comercial revelam um movimento de retração estrutural que antecedeu a crise atual. A gestora de ativos encerrou as atividades de três de suas filiais — localizadas em Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro — no dia 1º de abril de 2025. Esse fechamento coordenado de unidades físicas em importantes capitais brasileiras agora é visto sob uma nova ótica pelos investidores, que questionam se a saúde financeira da instituição já vinha sofrendo desgastes silenciosos muito antes do bloqueio total dos recursos ocorrido nesta semana.
Em meio ao caos, a Naskar manifestou-se por meio de uma nota oficial, atribuindo a paralisação das atividades a um problema técnico crítico. Segundo a fintech, ocorreu uma suposta “perda das bases de dados”, o que teria obrigado a empresa a conduzir um processo de auditoria interna para recuperar as informações dos correntistas. A companhia prometeu que a situação deve se normalizar ao longo da próxima semana, com o início de um processo de circularização para confirmar os saldos junto aos clientes, mas a justificativa técnica não foi suficiente para acalmar os ânimos de quem possui altas cifras aplicadas.
A trajetória da financeira, que atuou por 13 anos no mercado sem registros significativos de irregularidades, tornava o cenário atual impensável para muitos de seus aplicadores. O estopim da crise ocorreu na última segunda-feira, 4 de maio, quando o pagamento mensal de rendimentos, aguardado com pontualidade pelos investidores, simplesmente não foi realizado. A partir desse descumprimento contratual, uma enxurrada de cobranças foi direcionada aos sócios da gestora, que optaram pelo silêncio, deixando centenas de famílias em um vácuo de informações sobre o destino de seus patrimônios.
Na quinta-feira, 7 de maio, a situação agravou-se com relatos generalizados de que o acesso ao aplicativo da fintech havia sido bloqueado. Diversos investidores utilizaram plataformas como o site Reclame Aqui para registrar que não conseguiam sequer visualizar seus saldos ou solicitar resgates, o que aumentou os rumores de uma possível insolvência ou fraude. O bloqueio digital, somado à sede física desativada, criou um ambiente de pânico entre aqueles que dependem dos rendimentos mensais da Naskar para sua manutenção financeira básica ou para a operação de seus próprios negócios.
Relatos colhidos sob anonimato no Distrito Federal ilustram a magnitude das perdas individuais. Entre os clientes afetados está um empresário que realizou um aporte de R$ 3,9 milhões, um bancário com R$ 2,3 milhões investidos e um aposentado que confiou R$ 1 milhão à gestora. Para essas pessoas, a alegação de perda de banco de dados parece pouco plausível diante da estrutura que uma empresa desse porte deveria manter em termos de redundância de servidores e sistemas de backup, gerando suspeitas de que os ativos possam ter sido dissipados ou desviados.
A estrutura societária da Naskar é composta por três nomes conhecidos: Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato. Este último, conhecido como Maurício Jahu, possui uma imagem pública consolidada como ex-jogador de vôlei e apresentador de televisão, o que conferia à empresa uma camada extra de credibilidade perante o público leigo e investidores de médio porte. O fato de figuras públicas estarem envolvidas no imbróglio aumenta a pressão sobre os órgãos reguladores e as autoridades policiais, que são cobrados por uma resposta rápida sobre a integridade dos fundos geridos.
O setor de inteligência financeira e advogados especializados em crimes do colarinho branco já monitoram o caso com atenção, orientando os clientes a registrarem boletins de ocorrência e a ingressarem com medidas cautelares de arresto de bens. Especialistas explicam que, em casos de fintechs que interrompem pagamentos alegando problemas técnicos, as primeiras 48 horas são cruciais para a tentativa de bloqueio de contas dos sócios antes que os recursos sejam pulverizados em outras jurisdições. A movimentação em Alphaville e o encerramento das filiais serão peças fundamentais em uma eventual investigação de fraude falimentar.
Enquanto a próxima semana não chega com a prometida normalização, o clima no mercado de investimentos alternativos em São Paulo é de retração. A crise na Naskar reacende o debate sobre a fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central sobre gestoras que operam fora do radar dos grandes bancos de varejo. Investidores agora buscam entender como uma empresa com mais de uma década de história pôde apresentar um colapso tão súbito e opaco, deixando quase 3 mil famílias brasileiras em uma agonia financeira que parece longe de um desfecho pacífico ou célere.
A Polícia Civil de São Paulo e o Ministério Público devem ser acionados nos próximos dias por grupos de investidores que estão se organizando em fóruns digitais e grupos de mensagens para uma ação coletiva. A principal demanda é que a “auditoria” mencionada pela empresa seja fiscalizada por órgãos independentes, garantindo que a base de dados não seja manipulada para ocultar perdas reais no mercado de risco. A transparência prometida pela fintech será testada no início da segunda quinzena de maio, quando o prazo para a retomada dos contatos oficiais se encerra, conforme a própria nota emitida pela companhia.
Por fim, o caso da fintech Naskar encerra-se, nesta semana de maio de 2026, como um lembrete amargo da volatilidade e dos riscos inerentes ao sistema financeiro digital não bancarizado. Entre o endereço abandonado na Vila Olímpia e a incerteza de Alphaville, R$ 900 milhões permanecem no limbo, enquanto os sócios Liranco, Vieira e Jahu mantêm o silêncio que alimenta o medo de milhares de brasileiros. A história da gestora que sumiu com os ativos de seus clientes promete ser um dos maiores capítulos de litígio financeiro do ano, desafiando a capacidade das autoridades em proteger a poupança popular contra colapsos sistêmicos ou má gestão.