Imagine passar oito ou nove horas por dia em pé, caminhando sobre o piso frio de uma grande loja, sem o direito básico de apoiar as costas em uma cadeira nos momentos em que o movimento de clientes diminui. Parece um detalhe bobo da rotina, mas esse pano de fundo virou o centro de uma disputa jurídica intensa que diz muito sobre o que consideramos dignidade no ambiente de trabalho.
A Justiça do Trabalho em Mato Grosso mandou um recado direto para a filial da Havan em Rondonópolis, exigindo que a empresa passe a fornecer cadeiras com encosto para seus vendedores. A decisão, tomada em caráter liminar, atende a um pedido do Ministério Público do Trabalho, que começou a puxar esse fio após receber denúncias de ex-funcionários e realizar uma fiscalização no local.
Para quem olha de fora, a exigência pode parecer uma burocracia exagerada, mas o MPT enxerga ali uma violação clara da saúde dos trabalhadores. Segundo as denúncias, a falta de assentos adequados nos setores de vendas impedia que os funcionários fizessem a alternância de postura e descansassem o corpo de forma correta ao longo da jornada.
A juíza responsável pelo caso, Michelle Trombini Saliba, seguiu a linha de raciocínio da acusação e destacou o impacto invisível dessa rotina. Ela entendeu que obrigar alguém a ficar de pé durante todo o expediente, sem uma alternativa viável de repouso, é o tipo de desgaste que compromete diretamente o bem-estar e a saúde a longo prazo.
A base legal para essa cobrança não é nova e está cravada no artigo 199 da CLT. A lei brasileira deixa claro que as empresas devem oferecer assentos adequados para funções que exigem o trabalho sentado e, no caso de quem trabalha de pé, disponibilizar cadeiras para uso nas pausas que o serviço permite.
O problema é que o debate escalou rapidamente do campo ergonômico para a tradicional arena ideológica que costuma cercar a marca. Além de exigir as cadeiras imediatamente, o Ministério Público do Trabalho quer que a rede de lojas seja condenada a pagar R$ 500 mil por dano moral coletivo.
Como era de se esperar, o empresário Luciano Hang, dono da Havan, não engoliu a determinação e reagiu publicamente com fortes críticas à atuação judicial. Para ele, a determinação não passa de uma decisão política e ideológica disfarçada de Justiça, um argumento que ele costuma usar quando sua empresa entra no radar de órgãos de fiscalização.
O empresário defende que a Havan já cumpre rigidamente todas as normas de ergonomia e oferece uma estrutura adequada de descanso aos colaboradores. Segundo a argumentação da empresa, existem regras internas que garantem as pausas necessárias ao longo do dia, tornando a obrigação das cadeiras no setor de vendas uma interferência desnecessária.
O que esse embate revela, no fundo, é um choque cultural profundo sobre o que significa produtividade e vigilância no varejo brasileiro. Para o modelo tradicional de comércio, o funcionário sentado passa a falsa impressão de ociosidade, como se a prontidão dependesse exclusivamente do cansaço físico.
Essa cultura do “vendedor sempre de pé” é uma herança antiga, que muitas vezes ignora os avanços da medicina do trabalho e a própria legislação vigente. O MPT tenta quebrar essa lógica ao mostrar que o conforto mínimo não diminui as vendas, mas preserva a integridade do trabalhador.
Por outro lado, a forte reação da empresa mostra como o ambiente corporativo resiste a intervenções estatais que moldam o dia a dia da operação. A discussão deixa de ser sobre a saúde das costas de um funcionário e passa a ser tratada como um cabo de guerra sobre quem manda no chão de loja.
O desfecho dessa história em Rondonópolis serve como um termômetro importante para o comércio varejista como um todo. Enquanto o processo principal segue tramitando, fica a reflexão sobre até que ponto o conforto de quem atende o público deve ser sacrificado em nome de uma estética de prontidão constante.