A investigação sobre o suposto uso de verbas públicas para a produção do documentário que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro ganhou contornos tensos durante uma ação de busca e apreensão na capital paulista. A produtora cinematográfica Karina Ferreira da Gama, apontada como uma das figuras centrais no esquema sob apuração, adotou uma postura de total silêncio ao se recusar a fornecer o código de acesso de seu telefone celular aos investigadores. O equipamento, um iPhone 17 de última geração, acabou sendo recolhido de forma obrigatória pelos policiais civis que cumpriam as ordens judiciais.
Os agentes que coordenaram a abordagem fazem parte da estrutura do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania da Polícia Civil de São Paulo, que atua no combate a desvios de recursos públicos. A apreensão do eletrônico atendeu a uma determinação expressa do Poder Judiciário paulista, que considerou a medida fundamental para o avanço das investigações. Além de autorizar o recolhimento dos aparelhos dos envolvidos, a mesma decisão judicial quebrou o sigilo de dados telemáticos de Karina e de outras pessoas que estão sob a mira da polícia.
O foco principal do inquérito policial tenta mapear o destino final de repasses milionários que deveriam ser aplicados na melhoria da infraestrutura digital das regiões mais carentes de São Paulo. A organização não governamental Instituto Conhecer Brasil, representada legalmente por Karina, fechou um contrato robusto com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia que alcança a cifra de cento e oito milhões de reais. Esse dinheiro público tinha como objetivo exclusivo financiar a instalação física de pontos públicos de acesso à internet nas periferias da cidade.
Os investigadores suspeitam que parte dessa verba bilionária foi desviada dos projetos de conectividade social para cobrir os custos de produção e finalização do longa-metrado independente batizado de Dark Horse. As desconfianças da equipe de auditoria ganharam força após a análise detalhada das prestações de contas enviadas pela ONG à prefeitura paulistana. O relatório preliminar do inquérito aponta para a existência de uma quantidade significativa de inconsistências fiscais e notas emitidas sem a devida comprovação dos serviços prestados.
O desenrolar do cumprimento dos mandados judiciais na residência de Karina foi registrado em detalhes pelos investigadores responsáveis pela operação de campo. Os policiais relataram que a própria produtora atendeu a equipe no portão e permitiu a entrada dos agentes no imóvel de forma colaborativa no primeiro momento. Logo em seguida, a investigada entrou em contato com seu defensor legal, o advogado Márcio Sayeg, que se deslocou rapidamente até o endereço para acompanhar os procedimentos da vistoria.
Foi o próprio advogado quem assumiu a liderança da estratégia de defesa técnica no local e deu a instrução expressa para que sua cliente não entregasse o segredo do celular. Esse tipo de recomendação é uma prática comum no meio jurídico, respaldada pelo direito constitucional que todo cidadão tem de não produzir provas contra si mesmo durante investigações. Com a negativa da senha, o aparelho telefônico foi guardado lacrado no envelope de evidências para passar por tentativas de desbloqueio em laboratórios da perícia.
A varredura realizada na residência da produtora também resultou na descoberta de materiais burocráticos importantes guardados em um cômodo inusitado da casa. Os agentes de segurança localizaram e apreenderam uma pasta repleta de documentos internos pertencentes ao Instituto Conhecer Brasil que estava em cima de um balcão na cozinha. A equipe também estendeu os procedimentos de busca para o interior do veículo utilitário de Karina, uma caminhonete Toyota Hilux que estava estacionada na garagem do imóvel.
A operação policial não se limitou ao primeiro endereço da investigada e enviou equipes para um segundo imóvel residencial que aparece ligado ao nome da produtora no Jardim Maracanã, na Zona Norte. Nessa localidade, os policiais civis encontraram um morador de cinquenta e três anos de idade e também determinaram o confisco imediato de seu smartphone pessoal. Até o momento, o relatório da Polícia Civil não conseguiu detalhar qual seria o grau de parentesco ou a relação profissional desse homem com as atividades de Karina.
Para fechar o cerco da apuração, os investigadores se dirigiram até a sede comercial onde o Instituto Conhecer Brasil constava registrado nos documentos oficiais da prefeitura. Ao chegarem a um prédio de escritórios localizado na movimentada Avenida Paulista, os agentes constataram que a ONG não funcionava mais naquele espaço físico. Uma funcionária responsável pelo local explicou aos policiais que a empresa utilizava os serviços de um escritório compartilhado, mas que o cadastro de locação já havia sido cancelado há algum tempo.
Esse sumiço da sede física da instituição adiciona mais uma camada de suspeitas sobre o funcionamento da entidade que movimentava cifras na casa dos cem milhões de reais. Para a polícia, a falta de uma estrutura fixa de trabalho serve como um indício clássico de que a organização pode ter sido utilizada como fachada para facilitar a circulação de dinheiro. O contraste entre os escritórios vazios e o contrato milionário ajuda a desenhar a gravidade do cenário que os auditores tentam desvendar.
A defesa de Karina e dos representantes da ONG ainda tenta anular as quebras de sigilo nos tribunais de instâncias superiores, alegando que as medidas foram abusivas e desproporcionais. O argumento dos advogados é que todas as prestações de contas da instalação de internet foram entregues de acordo com os cronogramas estipulados pela prefeitura. Eles negam qualquer tipo de mistura entre o dinheiro dos pontos de rede da periferia e o financiamento privado do filme sobre o ex-presidente.
O avanço das perícias nos documentos apreendidos na cozinha e nos celulares recolhidos ditará os próximos passos dessa investigação que mistura cinema, política e verbas municipais. A expectativa é que o cruzamento de dados bancários das notas fiscais suspeitas revele se houve ou não o desvio para a produção cinematográfica. Enquanto as respostas não aparecem nos autos do processo, a internet nas comunidades paulistanas continua operando sob a sombra de um desvio bilionário.