O universo do ensino superior e os bastidores das grandes pesquisas acadêmicas na América Latina ganharam um chacoalhão daqueles com a divulgação de um dos estudos mais importantes e respeitados do planeta. A consultoria britânica Quacquarelli Symonds publicou, no mês de junho, a nova edição do seu tradicional relatório internacional de avaliação acadêmica, o QS World University Rankings 2027. Os dados atualizados trouxeram uma mistura de orgulho para os nossos vizinhos argentinos e um sinal de alerta bastante claro para os gestores das principais instituições de ensino brasileiras.
Mais uma vez, a grande estrela da festa regional foi a Universidade de Buenos Aires, a nossa conhecida UBA, que garantiu a sua soberania absoluta e se consolidou como a melhor instituição de ensino superior de toda a América Latina. A universidade argentina conseguiu a impressionante façanha de manter a octogésima quarta posição no cenário global. Com esse desempenho espetacular de bastidores, a UBA se tornou a única representante de toda a região latino-americana a figurar no seleto grupo das cem melhores universidades do planeta pelo segundo ano consecutivo.
Logo atrás da líder argentina, a Pontifícia Universidade Católica do Chile conseguiu segurar firme a segunda colocação regional ao aparecer na centésima décima nona posição do ranking geral, mostrando uma estabilidade admirável em seus indicadores internos. O balde de água fria, infelizmente, sobrou para o Brasil, já que a nossa querida Universidade de São Paulo acabou sofrendo um recuo considerável. A USP despencou vinte e cinco posições nesta edição e estacionou na centésima trigésima terceira colocação mundial, garantindo apenas a medalha de bronze no pódio da América Latina.
Para se ter uma dimensão exata do tamanho e da seriedade desse levantamento internacional, a consultoria britânica avaliou minuciosamente mais de oito mil e oitocentas universidades espalhadas por cento e seis países diferentes de todos os continentes. Desse montante gigantesco de dados coletados de bastidores, apenas mil quinhentas e quatro instituições conseguiram atingir a pontuação mínima para entrar na classificação oficial. Os critérios utilizados para dar as notas incluem desde a reputação que a faculdade tem no mercado de trabalho até o número de citações científicas dos seus professores em revistas internacionais.
Apesar de a USP ter ficado para trás na média geral que soma todos os indicadores, o cenário muda bastante de figura quando analisamos de perto o quesito específico de reputação acadêmica pura, onde a diferença entre as duas gigantes quase desaparece. Nesse indicador, que mede o prestígio dos professores perante a comunidade científica global, a UBA brilha na trigésima quarta posição do planeta, enquanto a USP aparece logo atrás na respeitável quadragésima colocação mundial. Esse dado isolado mostra que a qualidade do ensino e da pesquisa no Brasil continua sendo vista com excelentes olhos lá fora.
Conhecer a trajetória da grande campeã ajuda a entender por que ela se mantém tão forte e querida pelo seu povo no cotidiano da Argentina. Fundada no distante dia doze de agosto de mil oitocentos e vinte e um, a UBA é uma instituição totalmente pública, gratuita, laica e que possui autonomia administrativa para tomar as suas decisões de bastidores. Com sua sede principal espalhada pela vibrante cidade de Buenos Aires, a universidade abriga treze faculdades tradicionais, englobando áreas concorridas como Medicina, Direito e Engenharia, e oferece mais de cem cursos de graduação para milhares de jovens.
Por outro lado, os analistas brasileiros de educação começam a coçar a cabeça e a demonstrar preocupação com a tendência de queda que a USP vem apresentando nos últimos tempos. A instituição paulista vive agora o seu terceiro recuo consecutivo desde que atingiu o seu auge histórico no ranking de dois mil e vinte e três, ano em que estreou de forma triunfal no topo do mundo na octogésima quinta posição. Em um intervalo de apenas quatro edições da pesquisa, a USP caiu para nonagésima segunda, depois para centésima oitava e agora amarga a centésima trigésima terceira posição, perdendo quarenta e oito postos desde a sua estreia dourada.
Mesmo com esse gosto amargo de ver a sua principal representante perder fôlego na disputa pelo topo, o Brasil ainda tem motivos de sobra para se orgulhar de sua força coletiva no mapa educacional. O nosso país continua ostentando o maior número absoluto de universidades classificadas em toda a região da América Latina, com vinte e duas instituições de ensino de ponta figurando na lista internacional. Esse volume expressivo de escolas de alto nível coloca o território nacional bem à frente de outros concorrentes de peso do continente, como as redes universitárias do México e do Chile.
No entanto, quando olhamos para a floresta e não apenas para as árvores individuais, fica nítido que o ensino superior da América Latina como um todo está passando por um momento de bastante fragilidade e perda de espaço no cenário global. O relatório de junho apontou que sessenta instituições da nossa região acabaram perdendo posições preciosas no ranking mundial, enquanto apenas nove universidades latino-americanas conseguiram a proeza de subir degraus na tabela de classificação geral, revelando uma necessidade urgente de novos investimentos estatais.
Os dados consolidados de meados de dois mil e vinte e seis apenas confirmam o tamanho do reinado construído pela universidade de Buenos Aires, que conseguiu se consagrar como a melhor da América Latina em onze das últimas doze edições do ranking anual. Essa hegemonia impressionante de bastidores mostra que o modelo público e gratuito dos nossos vizinhos continua gerando resultados práticos de alta relevância, servindo como um porto seguro de conhecimento e desenvolvimento social mesmo diante das crises financeiras que costumam assolar o país vizinho.
Muitos especialistas em políticas públicas de educação aproveitam esses resultados para debater como a falta de financiamento contínuo e a burocracia excessiva afetam a competitividade das universidades brasileiras no exterior. Eles explicam que manter laboratórios de ponta atualizados e atrair professores estrangeiros renomados exige recursos financeiros estáveis e de longo prazo, algo que as universidades públicas brasileiras enfrentam dificuldades para garantir devido às constantes oscilações políticas e cortes de orçamentos sofridos nos últimos anos nos âmbitos federal e estadual.
No final das contas, o desfecho claro, técnico e bastante realista dessa nova edição do ranking internacional deixa uma lição muito nítida e de fácil entendimento sobre a importância de cuidarmos do nosso patrimônio científico com muito carinho e planejamento estratégico. Entender que o prestígio acadêmico não é permanente e que as outras nações continuam avançando rápido em suas pesquisas continua sendo o maior desafio para que a USP e as demais federais do Brasil recuperem o espaço perdido nos próximos anos. A sociedade acompanha os desdobramentos desses dados esperando que novos investimentos apareçam e que o orgulho pela nossa ciência prevaleça de forma exemplar.