O universo dos grandes mistérios do futebol mundial e as eternas discussões sobre a lisura dos resultados históricos ganharam um capítulo extremamente barulhento nas últimas semanas. O ex-jogador peruano José Velásquez resolveu colocar mais lenha na fogueira ao participar de um novo documentário esportivo focado nos bastidores da Copa do Mundo de 1978, produção que estreou recentemente no catálogo da plataforma de streaming Disney+. Na obra, o ex-atleta de elite não poupou palavras e voltou a defender com unhas e dentes a polêmica tese de que aquela histórica partida entre Argentina e Peru foi completamente arranjada por fora dos gramados.
Toda essa fumaça de bastidores gira em torno do emblemático confronto em que a seleção argentina atropelou o Peru por um placar acachapante de seis a zero, garantindo a vaga dos donos da casa para a grande final daquele mundial. Velásquez, que esteve em campo vivenciando a partida de perto, insiste que o resultado bizarro não foi fruto de uma noite ruim dos seus companheiros ou de pura superioridade técnica do adversário. Para ele, houve uma interferência direta de poder financeiro que acabou selando o destino do jogo muito antes de o juiz apitar o início do duelo.
De acordo com as declarações bombásticas do ex-volante no documentário, pelo menos seis integrantes do elenco titular da seleção peruana daquela época teriam recebido compensações financeiras generosas para facilitar a vida dos atacantes argentinos. O ex-jogador de futebol afirma categoricamente que o esquema de corrupção foi muito bem articulado nos bastidores, com o objetivo claro de garantir que a seleção anfitriã conseguisse a diferença de gols exata que precisava para eliminar o Brasil e avançar na competição.
Um dos pontos mais intrigantes e controversos revelados por José Velásquez no depoimento envolve a escalação de um personagem central daquela equipe: o goleiro Ramón Quiroga. Como o arqueiro era argentino de nascimento e naturalizado peruano, uma parte considerável do grupo de atletas ficou extremamente desconfiada de sua lealdade antes de a bola rolar. Velásquez contou que um grupo de lideranças do elenco chegou a procurar o treinador do Peru na véspera do jogo, solicitando formalmente que Quiroga fosse barrado e deixado no banco de reservas, mas o pedido acabou sendo sumariamente ignorado pela comissão técnica.
Para quem não se lembra ou não era nascido na época, o contexto político que cercava a Copa do Mundo de 1978 na Argentina era de extrema tensão e delicadeza. O país vizinho vivia sob o comando de uma violenta ditadura militar liderada pelo general Jorge Rafael Videla, que enxergava no torneio de futebol a oportunidade perfeita de fazer propaganda política e limpar a imagem do regime perante a opinião pública internacional. Nesse cenário de forte pressão governamental de bastidores, a vitória da seleção nacional no torneio passou a ser tratada quase como uma questão de segurança de Estado.
A vitória elástica por seis a zero em cima dos vizinhos peruanos levantou sobrancelhas e gerou suspeitas imediatas de marmelada em toda a imprensa esportiva global, especialmente entre os dirigentes e torcedores brasileiros, que se sentiram prejudicados com a eliminação por conta do saldo de gols. Desde aquela noite fria de inverno em Rosário, a partida passou a figurar em qualquer lista de maiores teorias da conspiração e mistérios não resolvidos da história do esporte, alimentando debates apaixonados que já duram quase meio século.
Apesar do barulho imenso que essas acusações costumam fazer sempre que voltam à tona nos jornais, o fato concreto é que, até hoje, nenhuma prova material indiscutível ou documento financeiro foi apresentado para comprovar de vez a fraude. O confronto de 1978 permanece congelado em uma espécie de limbo histórico, onde as suspeitas de bastidores são extremamente fortes e baseadas em relatos pessoais de quem estava lá, mas a falta de evidências físicas definitivas impede que a Fifa ou os órgãos oficiais de esportes tomem qualquer medida punitiva ou mudem o resultado das estatísticas.
Muitos ex-companheiros de equipe de Velásquez e outros ex-jogadores daquela geração de ouro do futebol peruano reagem com profunda indignação e tristeza sempre que essas histórias de suborno são reaquecidas na mídia. Eles argumentam que as acusações mancham de forma injusta e cruel a reputação profissional de atletas sérios que apenas tiveram uma atuação desastrosa e atípica contra uma Argentina inspirada e empurrada por um estádio lotado de torcedores ensandecidos, que criavam uma atmosfera de jogo muito difícil de encarar.
É muito interessante notar como o lançamento de documentários em grandes plataformas digitais de alcance mundial tem o poder único de resgatar essas discussões do passado e apresentá-las para uma geração de jovens torcedores que só conhecem o futebol moderno da era do VAR e dos salários astronômicos. Ver astros do passado dando depoimentos dramáticos de bastidores em alta definição faz com que o público atual compreenda que as polêmicas extracampo e os interesses políticos sempre caminharam lado a lado com a paixão pelo futebol em qualquer época.
Para os torcedores peruanos mais antigos, esse assunto é como uma ferida que nunca cicatriza totalmente e que vira e mexe volta a incomodar. O país andino possuía um dos times mais técnicos, organizados e charmosos do futebol sul-americano nos anos setenta, liderado pelo genial Teófilo Cubillas, e ver aquela geração brilhante ficar para sempre carimbada na memória coletiva por causa de uma suspeita de entrega de resultado é um fardo muito pesado de carregar para a comunidade esportiva local no seu dia a dia.
Pelo lado dos argentinos, o título de 1978 é celebrado com muito orgulho pelo futebol arte apresentado em campo por craques como Mario Kempes, mas sempre acompanhado de um inevitável tom de desconforto devido ao pano de fundo político cinzento da época de bastidores. Muitos torcedores do país vizinho preferem focar estritamente no desempenho técnico dos noventa minutos de cada jogo, defendendo que a seleção de seu país tinha plenas condições de golear qualquer adversário daquele torneio sem precisar de qualquer tipo de ajuda externa ou facilitação burocrática.
No final das contas, o desfecho dessa eterna polêmica esportiva reaberta por José Velásquez no documentário deixa uma certeza muito nítida e de fácil entendimento sobre o poder que as lendas e os mitos exercem sobre a cultura popular. Entender que o futebol é muito mais do que apenas um esporte de vinte e duas pessoas correndo atrás de uma bola de couro e que ele envolve paixões geopolíticas profundas continua sendo a única forma de compreender o tamanho desse mistério. A população esportiva mundial acompanha os debates na internet sabendo que, com ou sem provas físicas, a mística da Copa de 1978 continuará viva e dividindo opiniões de forma exemplar nas próximas décadas.