A recente declaração da influenciadora e comentarista Pietra Bertolazzi, ao afirmar que o feminismo teria sido inventado por mulheres desprovidas de beleza estética, reacendeu um debate inflamado sobre as bases ideológicas e as motivações históricas do movimento. A frase, proferida em um contexto de crítica às vertentes contemporâneas do feminismo, rapidamente tomou conta das redes sociais e dos portais de notícias em 2026, gerando uma polarização que divide opiniões entre o conservadorismo comportamental e o ativismo pelos direitos das mulheres. A fala toca em um ponto sensível da cultura atual, sugerindo que a militância política seria uma forma de compensação por frustrações de ordem pessoal ou estética.
A polêmica gerada por Bertolazzi não é um fato isolado, mas insere-se em uma crescente onda de críticas que buscam deslegitimar as conquistas do movimento feminista através da estetização da política. Ao vincular a origem de um pensamento intelectual e sociológico complexo à aparência física das suas proponentes, a comentarista utiliza um recurso retórico que visa simplificar décadas de luta por direitos civis, como o voto, a autonomia financeira e a proteção jurídica contra a violência doméstica. Essa abordagem acaba por desviar o foco das pautas estruturais para o campo do julgamento individual, criando um ambiente de debate focado na imagem e não nas ideias.
Historiadores e estudiosos do gênero reagiram prontamente à declaração, ressaltando que as raízes do feminismo estão fincadas em necessidades concretas de sobrevivência e dignidade humana. Desde as sufragistas do século XIX até as intelectuais da segunda onda, como Simone de Beauvoir, a motivação central sempre foi a busca pela equidade em uma sociedade que restringia severamente as liberdades femininas. A tentativa de reduzir essa trajetória a uma questão de atratividade física é vista por especialistas como uma estratégia de “ad hominem”, que busca atacar o indivíduo para invalidar o argumento político que ele sustenta.
Por outro lado, as palavras de Pietra encontraram eco em setores da sociedade que se sentem desconectados das pautas do feminismo radical ou que acreditam que o movimento se tornou excessivamente agressivo e avesso à feminilidade tradicional. Para os apoiadores dessa visão, o feminismo contemporâneo teria abandonado a busca por igualdade de oportunidades para se tornar uma plataforma de ressentimento social. Esse grupo argumenta que a valorização da beleza e dos papéis tradicionais de gênero é uma escolha legítima que tem sido rotulada como opressão pela militância, gerando um efeito de reação que se manifesta em falas como a da influenciadora.
O debate em 2026 também levanta questões sobre o papel da imagem na era das redes sociais e como o algoritmo privilegia discursos que utilizam o choque visual e estético para gerar engajamento. A frase “as feias inventaram o feminismo” é construída para viralizar, pois toca em tabus de autoimagem e validação social que são centrais na experiência digital moderna. Ao utilizar um adjetivo pejorativo para classificar um grupo ideológico, cria-se uma barreira comunicacional que dificulta o diálogo racional, priorizando a ofensa e a defesa apaixonada em vez da análise histórica rigorosa.
Ativistas dos direitos das mulheres destacam que essa linha de raciocínio é perigosa por reforçar a ideia de que o valor de uma mulher está intrinsecamente ligado à sua capacidade de agradar ao olhar alheio. O feminismo, em sua essência, luta justamente para que as mulheres sejam ouvidas e respeitadas independentemente de sua aparência, idade ou conformidade com padrões de beleza. Quando uma figura pública sugere que apenas mulheres “mal-sucedidas” esteticamente buscam o feminismo, ela acaba por validar a própria opressão que o movimento tenta combater, perpetuando o ciclo de julgamento pela aparência.
A discussão ganhou camadas adicionais quando influenciadoras de moda e beleza entraram na conversa para defender que o autocuidado e o apreço pela estética não são incompatíveis com o pensamento feminista. Muitas vozes argumentam que uma mulher pode ser vaidosa, investir em sua imagem e, ainda assim, lutar por equidade salarial e contra o assédio no ambiente de trabalho. Essa visão busca desfazer o estereótipo de que a feminista deve necessariamente abdicar da vaidade, propondo um equilíbrio onde a autonomia sobre o próprio corpo inclua o direito de ser como quiser, sem que isso anule sua consciência política.
Dentro do campo político, a frase de Bertolazzi foi utilizada como combustível para discursos que pregam o retorno aos “valores familiares” e à ordem social clássica. Críticos do atual governo e das políticas afirmativas veem nessas polêmicas uma oportunidade para questionar o financiamento de projetos ligados à diversidade e ao gênero, alegando que tais iniciativas estariam baseadas em conceitos que não representam a “mulher real”. O uso da estética como ferramenta de divisão social torna-se, assim, um trunfo eleitoral em um cenário de forte polarização ideológica.
A reação nas universidades e centros de pesquisa também foi de alerta, com acadêmicas publicando artigos que relembram a diversidade de perfis das mulheres que construíram o movimento ao longo dos anos. Muitas dessas pioneiras eram mulheres casadas, mães, profissionais liberais e artistas que, longe de buscarem o feminismo por falta de opções sociais, o faziam por compreenderem as limitações impostas a todas, independentemente da beleza. O resgate dessas biografias serve como um contraponto factual à generalização proposta na declaração polêmica, mostrando que o pensamento crítico não escolhe rosto.
No cotidiano das empresas e ambientes corporativos, a polêmica trouxe à tona a discussão sobre o “beauty bias” ou viés de beleza, que mostra que pessoas consideradas atraentes tendem a receber salários maiores e promoções mais rápidas. O feminismo, ao abordar essas desigualdades, expõe como o sistema favorece certos padrões em detrimento da competência técnica. Portanto, ao atacar o feminismo através da estética, a fala de Pietra acaba por tocar, ainda que involuntariamente, em uma das feridas que o movimento busca curar: a objetificação do ser humano em prol de uma imagem comercializável.
As plataformas digitais tornaram-se o campo de batalha onde hashtags contra e a favor da influenciadora dominaram os tópicos mais comentados por dias. Enquanto alguns celebravam a “coragem de dizer a verdade”, outros organizavam boicotes e produziam conteúdos educativos sobre a história das conquistas femininas. Esse movimento pendular demonstra que a sociedade brasileira de 2026 ainda está em pleno processo de digestão sobre o que significa ser mulher em um mundo que exige, simultaneamente, produtividade profissional extrema e perfeição estética inatingível.
Por fim, o episódio iniciado pela declaração de Pietra Bertolazzi encerra-se com a percepção de que as palavras têm o poder de simplificar ou complexificar realidades históricas. O feminismo, com todas as suas contradições e correntes internas, continua sendo um dos movimentos sociais mais influentes da história moderna, sobrevivendo a críticas estéticas e ataques pessoais ao longo de séculos. A polêmica de 2026 é apenas mais um capítulo de um longo debate sobre quem tem o direito de falar pelas mulheres e quais critérios devem ser usados para validar suas lutas e conquistas em uma sociedade em constante transformação.