A declaração do General Augusto Heleno Ribeiro Pereira, ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e figura central no governo Jair Bolsonaro, de que convive com o Alzheimer desde 2018, é uma notícia de profunda gravidade que levanta questões éticas, médicas e de segurança nacional. A revelação, feita ao Exército, exige uma análise da capacidade de tomada de decisão em um dos cargos mais sensíveis da República.
A Cronologia da Doença e do Cargo
O diagnóstico de Alzheimer, uma doença neurodegenerativa que compromete progressivamente a memória e as funções cognitivas, ocorreu em 2018, ano em que o General Heleno foi convidado a integrar a chapa presidencial e, posteriormente, a assumir o GSI.
O Gabinete de Segurança Institucional é o órgão responsável pela segurança presidencial, pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e pela coordenação da segurança cibernética e nuclear do país.
O ceticismo nos obriga a confrontar a cronologia:
A Governança: O Brasil foi governado, em seus mais altos escalões de segurança e inteligência, por uma pessoa com uma condição degenerativa progressiva que afeta diretamente o julgamento e a capacidade de processamento de informações.
O Sigilo: O fato de o diagnóstico ter permanecido em sigilo durante o período de mandato (2019-2022) levanta questões sobre a transparência e a checagem de aptidão para cargos de segurança máxima.
Essa situação expõe uma falha grave nos mecanismos de due diligence e de controle de aptidão médica em cargos que envolvem a defesa do Estado.
O Risco à Segurança e à Inteligência
A atuação de um chefe de inteligência e segurança com Alzheimer, mesmo em estágios iniciais, introduz um risco sistêmico inaceitável. O GSI lida diariamente com informações classificadas, estratégias militares e a segurança pessoal do Presidente.
O avanço da doença poderia comprometer:
Julgamento de Risco: A capacidade de avaliar ameaças complexas à segurança nacional.
Memória Operacional: A retenção de informações estratégicas e sigilosas.
Comunicação: A clareza nas ordens e no repasse de diretrizes.
A revelação levanta a sombra da dúvida sobre a validade e a lucidez de decisões cruciais tomadas pelo GSI durante os anos de governo Bolsonaro, especialmente em períodos de alta tensão institucional.
O Papel do Exército e a Ética Militar
A comunicação do General Heleno ao Exército Brasileiro sobre sua condição sugere o cumprimento de um protocolo militar interno, o que demonstra que a informação estava restrita ao ambiente das Forças Armadas. No entanto, o debate sobre a ética militar se intensifica:
Dever de Informar: Havia o dever ético e legal de informar publicamente sobre a condição ao assumir o GSI, dado o impacto na segurança nacional?
Aptidão para a Reserva: A comunicação ao Exército é vital para o status de Heleno na reserva e para os benefícios médicos a que ele tem direito.
O Silêncio da Presidência
O ex-presidente Jair Bolsonaro e sua equipe foram cúmplices no silêncio sobre a condição de saúde de um de seus ministros mais importantes. Isso indica que a conveniência política de manter o General Heleno no cargo foi priorizada em detrimento da segurança e da transparência institucional.
O “e daí” dessa revelação é o imperativo de se criar um protocolo claro e compulsório para a avaliação cognitiva e de saúde mental de ocupantes de cargos estratégicos.
O caso Heleno se torna um precedente negativo que expõe a vulnerabilidade do sistema brasileiro à ocultação de informações médicas vitais para a governança. A memória do General Heleno, infelizmente, torna-se um símbolo da falha de compliance na mais alta esfera do poder.
O Estigma da Doença
A revelação também contribui, de forma involuntária, para desestigmatizar o Alzheimer, mostrando que ele pode afetar figuras de alta patente e intelecto. No entanto, no contexto político, o foco recai sobre o impacto no serviço público e a necessidade de aptidão inquestionável.
A Lição para o Protocolo
O episódio exige uma reforma imediata nos protocolos de segurança e de nomeação para cargos estratégicos, incluindo avaliações médicas periódicas e transparentes.
A Auditoria das Decisões
É natural que agora haja um clamor por uma auditoria das decisões tomadas pelo GSI sob o comando de Heleno, para verificar se a condição de saúde interferiu em atos de Estado.
Solidariedade e Política
Embora haja um elemento de solidariedade humana com a doença, a dimensão política do cargo ocupado deve prevalecer na análise.
O Legado do Sigilo
O principal legado do caso é o alerta sobre os riscos do sigilo em torno da saúde de líderes com poder decisório.
O Julgamento Histórico
A História fará o julgamento sobre a responsabilidade dos envolvidos em permitir que um General com diagnóstico de Alzheimer coordenasse a inteligência nacional.
A Defesa Institucional
O Exército, ao receber a informação, cumpre seu papel de documentação formal, mas a discussão ultrapassa a esfera militar.

