Quando um serviço público entra em colapso, a busca por culpados costuma ser mais veloz que qualquer tentativa de solução.
Foi o que se viu após a nova crítica do deputado Kim Kataguiri ao ex-prefeito e atual ministro Fernando Haddad, responsabilizado ironicamente pela crise dos Correios.
“Parabéns, você conseguiu quebrar os Correios”, escreveu Kataguiri nas redes, em tom de sarcasmo político.
A frase, curta e viral, cumpre seu papel: mais do que informar, provoca.
E reacende um tipo de disputa que virou marca da política contemporânea — a guerra pela narrativa.
Mas o que há por trás dessa acusação?
Os Correios, como tantas estatais brasileiras, vivem há anos um processo de sucateamento que atravessa diferentes governos.
Problemas estruturais, greves, falta de investimento, interferência política — nada disso começou com Haddad, nem vai terminar com ele.
A empresa é, em muitos sentidos, o retrato de um Estado que hesita entre ser gestor e ser máquina de poder.
E enquanto os políticos transformam a decadência em munição retórica, os serviços se degradam diante da inércia administrativa.
Kataguiri, que domina a linguagem digital, sabe o peso simbólico de culpar um ministro do PT.
A mensagem não é apenas sobre os Correios, mas sobre o imaginário político que associa o partido a ineficiência e descontrole.
É um discurso estratégico — curto o suficiente para caber num tweet, e inflamável o bastante para gerar engajamento.
Haddad, por sua vez, parece preferir o silêncio institucional.
Mas sua figura concentra algo maior: é a síntese da dificuldade do governo em comunicar resultados concretos em meio a ruídos políticos.
No fundo, o embate revela uma fragilidade estrutural da política brasileira: o debate substituído pelo espetáculo.
Falar dos Correios, nesse contexto, é falar menos de logística e mais de imagem.
E, enquanto os adversários trocam farpas, a estatal continua à deriva — com agências fechando, prazos falhando e trabalhadores exaustos.
O problema real, mais profundo, é a incapacidade do Estado de repensar o papel de suas próprias instituições num mundo digitalizado.
Os Correios foram desenhados para o século XX, mas operam num país que ainda discute o século XIX.
E a disputa entre Kataguiri e Haddad é apenas mais um sintoma de como a política, ao invés de reconstruir pontes, prefere incendiar o terreno.
No fim, talvez a crise dos Correios seja menos uma questão econômica e mais um espelho moral.
Uma metáfora perfeita de um país que não sabe mais para onde está enviando suas mensagens — nem quem, afinal, ainda as recebe.

