O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), voltou a propor nesta semana uma medida radical no enfrentamento às facções criminosas: ele defende a transferência de membros de Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) para uma unidade prisional no exterior ou, como alternativa, a construção de uma prisão de segurança máxima no coração da floresta amazônica. De acordo com Zema, tal estrutura seria inspirada no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), em El Salvador.
Na entrevista concedida à coluna do jornalista Paulo Cappelli, o governador afirmou que, caso não seja possível firmar convênio internacional para encaminhar presos brasileiros ao Cecot, “pelo menos” seria necessário construir um “Cecot brasileiro, no meio da Floresta Amazônica, num lugar bem isolado”.
Zema detalhou como imagina essa estrutura: acesso exclusivamente por via aérea, pista de pouso controlada, forte aparato de segurança e vigilância, em local remoto da Amazônia, dificultando qualquer tentativa de fuga. “[Seria] uma espécie de ‘Alcatraz da selva’, e quem tentasse fugir, com certeza, não iria sobreviver na floresta”, disse o governador.
A ideia vem no contexto da intensa atuação dessas facções na região amazônica. Estudos mostram que o Comando Vermelho domina atualmente mais de 130 municípios da chamada Amazônia Legal, enquanto o PCC está presente em número menor, mas ainda relevante. A presença dessas organizações em regiões de fronteira e dentro da floresta impulsiona a percepção de risco e de urgência no debate sobre segurança pública no país.
O modelo salvadorenho também foi citado como referência. O Cecot, inaugurado em 2023, destina-se a abrigar integrantes de gangues sob regime de isolamento extremo, com vigilância intensa. Zema disse que se impressionou com as políticas de segurança implementadas pelo governo do Nayib Bukele, ao visitar El Salvador em maio deste ano.
Contudo, não há registro oficial de que essa viagem tenha resultado em um plano concreto ou documento formal por parte da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais) para implementação da proposta. Em resposta a pedido via Lei de Acesso à Informação, foi informado que a missão serviu apenas para “conhecer estratégias de segurança pública implementadas” e não gerou política pública ou documentação formal até o momento.
A proposta de Zema gera debates de múltiplas naturezas. De um lado, sinaliza firmeza no enfrentamento ao crime organizado, em sintonia com o discurso de intolerância em relação às facções. De outro, provoca questionamentos em relação à viabilidade logística, ao respeito aos direitos humanos e aos impactos socioambientais de instalar uma prisão em região remota da Amazônia.
Especialistas e ativistas chamam a atenção para o fato de que tratar a Amazônia como espaço de depósito penal — “um lugar onde o país poderia simplesmente despejar faccionados indesejados”, segundo crítica — desconsidera a presença de milhões de habitantes, a diversidade de comunidades tradicionais, ribeirinhos, populações indígenas e os impactos sobre o território.
Além disso, há implicações ambientais e estruturais. A construção e operação de uma prisão de segurança máxima em meio à floresta demandaria investimentos elevados, conhecimentos técnicos para acesso e logística, além de impactos potenciais sobre fauna, flora, povos tradicionais e recursos naturais — aspectos não detalhados pela proposta anunciada.
No âmbito de segurança, o avanço das facções na Amazônia cria cenário complexo: além de tráfico de drogas e armas, essas organizações também se envolvem no garimpo ilegal, grilagem de terra, extração de madeira e pesca predatória, fatores que ampliam o desafio ao controle estatal.
A proposta de convênio internacional com El Salvador também levanta questões jurídicas e diplomáticas. A transferência de presos para outro país exige tratados, compatibilidade jurídica, garantias de direitos e condições de cumprimento. Zema ressaltou que “seriam transferidos para um presídio de segurança máxima num país que está bem distante, em que nem sinal de celular eles teriam”.
Do ponto de vista político, o anúncio ocorre em contexto de pré-candidatura de Zema à Presidência da República em 2026, o que insere o discurso em ambiente de disputa eleitoral e de definição de agenda de segurança para o país. ente, a execução de um projeto dessa natureza dependeria de ampla articulação entre União, estados, governo federal, possivelmente iniciativa privada e organismos internacionais, além de fundos para implementação e manutenção de uma unidade tão particular.
Ao mesmo tempo, operadores do sistema de justiça penal apontam que soluções de caráter exclusivamente punitivo podem não dar conta da complexa dinâmica das facções que se adaptam, se movimentam e se ramificam, inclusive em regiões remotas, o que exige políticas integradas, prevenção, investigação, cooperação interinstitucional e foco em raiz social.
No debate sobre direitos humanos, o modelo ao qual Zema se refere foi alvo de críticas por organizações que apontam para vulnerações de direitos, regimes de detenção extremamente rígidos e outros questionamentos sobre due-process, garantias legais e condições de encarceramento. Isso torna a proposta brasileira suscetível a resistências jurídicas e éticas.
Além disso, localizar uma prisão de segurança máxima em meio à floresta amazônica coloca desafios adicionais para o acesso de advogados, fiscalização, visitas, salvaguarda de direitos dos presos e supervisão pública — elementos que garantem transparência e observância de padrões internacionais de direitos humanos.
Em síntese, a proposta de Romeu Zema coloca no centro do debate questões cruciais sobre segurança pública, políticas carcerárias, direitos humanos, responsabilidade socioambiental e federalismo penal. O pronunciamento abre espaço para reflexão sobre como o país trata o crime organizado e que alternativas existem para além da simples construção de unidades de isolamento.
Por fim, cabe observar que, embora o discurso seja forte e visível, a viabilização de uma “Alcatraz da selva” demanda planejamento, articulação multidisciplinar, definição orçamentária, estudo de impacto, além de soluções que dialoguem com a complexa geografia e o tecido social da Amazônia — tarefa que ultrapassa o escopo de um anúncio e exige comprometimento de longo prazo.

