Quando o silêncio de uma criança vira motivo de preocupação pública, estamos falando de maternidade ou de espetáculo?
Virgínia Fonseca compartilhou com seus seguidores a apreensão sobre o desenvolvimento do filho mais novo, Zé Leonardo, de apenas um ano.
Segundo a influenciadora, ele ainda não pronunciou nenhuma palavra. A pediatra estipulou um prazo: em um mês, a criança deve falar ao menos cinco.
O episódio, narrado em tom íntimo, ganhou contornos de comoção coletiva. Mas por que a fala tardia de um bebê mobiliza tanta atenção?
Na era da superexposição digital, a infância deixou de ser apenas um processo privado para se tornar também narrativa pública.
Cada marco — o primeiro passo, o primeiro sorriso, a primeira palavra — é acompanhado por milhões de espectadores anônimos.
Essa expectativa transforma o desenvolvimento natural em uma espécie de corrida contra o tempo. A criança, sem saber, já é personagem de um roteiro que precisa atender a prazos.
O detalhe é que a ciência da infância raramente se encaixa em cronogramas rígidos. Bebês não seguem planilhas; seguem ritmos.
Alguns falam cedo, outros tardam. Alguns caminham antes do previsto, outros depois. Mas todos carregam em comum a plasticidade da infância.
Ao tornar público o prazo dado pela pediatra, Virgínia inadvertidamente reforça a lógica do desempenho infantil.
Não se trata apenas de falar. Trata-se de cumprir metas diante de uma plateia.
Nesse sentido, a ansiedade materna encontra eco na ansiedade coletiva de uma sociedade que mede valor em resultados mensuráveis.
O problema é que o desenvolvimento humano não é uma planilha de metas trimestrais. É uma trama complexa de estímulos, afetos e singularidades.
O que preocupa é a forma como essa narrativa molda a percepção das próprias mães. A comparação constante, alimentada pela internet, cria um ambiente de insegurança permanente.
Se o filho de uma influenciadora famosa precisa atingir cinco palavras em um mês, o que resta para as mães anônimas?
O risco é transformar o acompanhamento médico, que deveria ser orientação individualizada, em parâmetro universal de cobrança.
A questão que emerge, portanto, não é apenas sobre a fala de Zé Leonardo. É sobre como transformamos a infância em performance.
E, sobretudo, sobre o que projetamos em crianças que ainda nem começaram a se expressar.
No fim, talvez a pergunta mais perturbadora não seja “quando ele vai falar?”, mas “por que temos tanta pressa em ouvir?”.

