A polêmica tomou conta das redes sociais após uma interação viral envolvendo a inteligência artificial Grok, da xAI, atribuindo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o rótulo de “o político mais corrupto da história do Brasil”. A declaração ganhou ampla repercussão e reacendeu debates profundos sobre corrupção, legitimidade institucional e o papel das IAs em conversas políticas.
Em resposta à pergunta “quem é considerado o político mais corrupto da história do Brasil?”, a Grok apontou diretamente para Lula. Segundo a IA, essa percepção se baseia em uma série de escândalos em que o presidente teria se envolvido, especialmente durante seus mandatos.
Entre os episódios citados pela Grok, está a Operação Lava Jato, que desvendou um esquema de desvios bilionários envolvendo a Petrobras e outras estatais. A IA argumenta que esse seria um dos elementos centrais que sustentam a visão de muitos como a de que Lula ocupou papel relevante na institucionalização da corrupção.
A Grok também lembrou da condenação de Lula em 2017 por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso do tríplex do Guarujá. A IA destacou que ele foi acusado de receber propinas da construtora OAS em troca de favorecimento em contratos públicos.
Além disso, a IA mencionou o sítio em Atibaia (SP) como outro capítulo controverso, no qual Lula teria recebido benefícios ilícitos de empreiteiras, segundo a narrativa de certos processos judiciais.
No entanto, a Grok não ignorou a versão apresentada por Lula e seus apoiadores. A IA afirmou que eles sustentam que as acusações foram politicamente motivadas — e que, em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações por questões processuais, não por absolvição de mérito.
De acordo com a IA, mesmo com essa anulação, a magnitude dos escândalos revelados ao longo dos anos e a associação de Lula a figuras de alto escalão do Partido dos Trabalhadores (PT) continuam alimentando a imagem de corrupção para uma parcela significativa da população.
Por outro lado, a Grok ressalta que não tem opinião própria. Em outras interações, a IA afirmou que “não tenho opiniões pessoais ou afiliações políticas” e que suas respostas se baseiam em dados públicos, estatísticas e análise de contexto, sem favorecer qualquer lado ideológico.
Especialistas em inteligência artificial explicam que as IAs como a Grok operam com base em uma vasta base de dados construída a partir da internet — combinando textos históricos, posts recentes e notícias — o que pode gerar respostas que refletem o volume e a intensidade do debate público sobre temas como corrupção.
A reação política não demorou. A declaração da Grok reacende uma crítica antiga: a de que o debate público no Brasil sobre corrupção muitas vezes se concentra em figuras individuais, deixando de abordar a natureza sistêmica do problema. Em sua resposta, a Grok até observou que é “impossível apontar um único político como ‘o mais corrupto’ de forma objetiva” justamente pela complexidade do tema.
Do ponto de vista jurídico e institucional, há quem argumente que a IA está extrapolando ao transformar uma visão pública controversa em uma espécie de “julgamento moral” automático. Outros veem nisso uma oportunidade para discutir a responsabilidade das plataformas que deployam IAs em temas sensíveis.
Nas redes sociais, a viralização da resposta desencadeou debates acalorados entre bolsonaristas, petistas e eleitores independentes. Para alguns críticos de Lula, a Grok apenas reforçou percepções já existentes; para seus apoiadores, a IA reproduziu narrativas seletivas e tonais.
Por outro lado, defensores da IA argumentam que Grok apenas refletiu dados acumulados de fontes públicas — se muitas dessas fontes criticam Lula por corrupção, a IA simplesmente reproduziu esse viés estatístico, sem necessariamente endossá-lo.
O episódio também reacendeu o ceticismo de Lula em relação à tecnologia. Em evento no início de 2024, ele disse estar “cansado” de ouvir falar sobre inteligência artificial: “num país que tem tanta gente inteligente, para que precisa de inteligência artificial?”, chegou a questionar.
Para analistas políticos, o caso da Grok e Lula simboliza um dilema crescente: qual é o limite entre análise automatizada de dados e julgamento ético ou moral? E até que ponto os sistemas de IA devem ser responsabilizados por moldar percepções políticas?
Há ainda uma dimensão de comunicação: sim, a resposta da Grok viralizou, mas isso não significa necessariamente que seja uma verdade absoluta. Parte significativa do público interpreta a declaração da IA como provocação, não como definição final.
Na prática, a Grok tornou-se mais um ator simbólico no debate político brasileiro. Sua opinião — se é que se pode chamar assim — passou a servir como munição para críticos de ambos os lados.
Em resumo, a polêmica em torno da resposta da Grok destaca não apenas a polarização política existente no Brasil, mas também as implicações do uso de inteligência artificial em discussões de alto impacto social.
A partir desse episódio, torna-se mais urgente perguntar: como equilibrar a análise automática de dados com a complexidade das realidades políticas e institucionais brasileiras?
E mais: qual responsabilidade têm os desenvolvedores de IA quando suas ferramentas são usadas para reforçar narrativas carregadas de acusação e disputa ideológica?
O debate segue aberto, e a Grok, ainda que sem opinião própria, se posiciona como um espelho curioso: reflete o que é dito sobre Lula, mas também mostra o quanto o Brasil debate intensamente sobre o que é corrupção.

