A recente declaração da vereadora Karen Santos, do PSOL de Porto Alegre, reacendeu o debate sobre a política de drogas no Brasil e provocou reações intensas em diferentes setores da sociedade. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, a parlamentar afirmou que “traficantes são trabalhadores megaexplorados”, provocando forte repercussão pública.
A fala ocorreu durante uma discussão sobre segurança pública e políticas de enfrentamento ao tráfico, em meio às consequências da megaoperação realizada no Complexo do Alemão e na Penha, no Rio de Janeiro, que deixou mais de 100 mortos. O tema, já sensível, ganhou ainda mais visibilidade com a fala da vereadora.
Para Karen Santos, o problema do tráfico de drogas não se resume à criminalidade. Em sua visão, há uma estrutura econômica que se aproveita da vulnerabilidade de milhares de pessoas nas periferias. “Droga é uma mercadoria como qualquer outra”, afirmou, defendendo a legalização e a regulação da produção e do comércio dessas substâncias.
A parlamentar argumenta que a proibição das drogas cria um mercado paralelo lucrativo para facções criminosas, alimentando a violência e a corrupção. Segundo ela, a regulamentação traria controle estatal, cobrança de impostos e garantia de direitos trabalhistas para quem hoje vive na ilegalidade.
A declaração, porém, foi duramente criticada por adversários políticos e usuários das redes sociais, que enxergaram na fala uma tentativa de romantizar o crime. Muitos consideraram que a vereadora minimizou a gravidade das ações do tráfico e o impacto da criminalidade armada nas comunidades.
Em contraponto, apoiadores da parlamentar e defensores da legalização de drogas interpretaram suas palavras como um convite à reflexão sobre os limites e as falhas da atual política de guerra às drogas, que, há décadas, não consegue reduzir o poder das facções e nem a violência associada.
No campo político, a fala de Karen Santos gerou desconforto até mesmo dentro de setores da esquerda. Alguns correligionários do PSOL evitaram comentar o assunto, enquanto outros destacaram que a declaração foi tirada de contexto e que o foco da vereadora seria discutir as condições sociais de jovens cooptados pelo crime.
A parlamentar, que também é professora e militante de movimentos sociais, tem um histórico de defesa dos direitos humanos e de políticas públicas voltadas à periferia. Segundo ela, a discussão sobre o tráfico precisa considerar as desigualdades estruturais e o papel do Estado em oferecer alternativas concretas de renda e educação.
Em suas redes sociais, Karen reforçou que não defende o tráfico, mas questiona as causas que levam jovens pobres a se envolverem com o comércio ilegal de drogas. “Enquanto houver miséria e falta de oportunidades, o tráfico vai continuar sendo uma das poucas formas de sobrevivência para muitos”, afirmou.
A repercussão da fala expôs novamente a polarização em torno do tema. De um lado, setores conservadores reforçam a necessidade de endurecer as leis e ampliar o combate policial. De outro, grupos progressistas pedem uma abordagem centrada em políticas de saúde pública e redução de danos.
Especialistas em segurança e sociologia divergem sobre a eficácia do modelo atual. Pesquisas recentes indicam que o encarceramento em massa e as operações policiais em comunidades de baixa renda têm baixo impacto na redução do consumo e da circulação de drogas.
O tema também é discutido em nível internacional. Países como Portugal, Uruguai e Canadá adotaram políticas de descriminalização ou legalização controlada, com resultados diversos, servindo de base para novos debates no Brasil.
Karen Santos afirmou que esses exemplos internacionais mostram que é possível tratar o tema com racionalidade e não apenas com repressão. Para ela, a legalização permitiria desarticular o poder econômico do tráfico e reduzir a violência nas comunidades.
Críticos da proposta, no entanto, argumentam que o contexto brasileiro é diferente e que a legalização poderia aumentar o consumo e gerar novos problemas de saúde pública. Eles defendem que o país precisa fortalecer a prevenção e a repressão ao crime organizado.
O debate sobre a fala da vereadora também levantou questões sobre liberdade de expressão e responsabilidade pública. Alguns juristas afirmam que o pronunciamento se enquadra no direito à opinião política, enquanto outros consideram que a declaração extrapola o limite ético do cargo público.
Até o momento, Karen Santos não enfrenta nenhum tipo de processo disciplinar por suas declarações. O PSOL, partido ao qual pertence, não emitiu nota oficial sobre o caso, mas parlamentares da legenda têm se manifestado individualmente nas redes.
Entre as comunidades atingidas pela violência do tráfico, a repercussão da fala foi diversa. Enquanto alguns moradores viram a fala como sensível às realidades locais, outros disseram que a fala soa desconectada da dor cotidiana causada pelo domínio armado das facções.
O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, evitou comentar diretamente as declarações da vereadora, mas reforçou a importância de valorizar o trabalho policial e combater o crime organizado com firmeza e inteligência.
O episódio envolvendo Karen Santos mostra como o tema das drogas continua sendo um dos mais polarizados da política brasileira. De um lado, há quem defenda a regulação como solução pragmática; de outro, os que consideram a criminalização indispensável à segurança pública.
O debate, reacendido pela fala da vereadora, deve continuar ocupando espaço no cenário político e acadêmico, ampliando as discussões sobre o papel do Estado, o impacto das desigualdades e os caminhos possíveis para enfrentar o tráfico e suas consequências sociais.

