Quem define o que é cultura — e quem decide quem lucra com ela? No caso do Jockey Club de São Paulo (Jockey SP) e dos recursos da Lei Rouanet, a resposta se transforma em terreno de disputa delicada entre patrimônio, poder e favorecimento.
Nos últimos sete anos, o Jockey SP recebeu cerca de R$ 83,6 milhões em incentivos fiscais, dos quais aproximadamente R$ 22,4 milhões vieram via Lei Rouanet.
Até aí, poderia ser apenas mais um exemplo de política cultural. Mas o que chama atenção são as conexões entre parte desses valores e empresas ligadas ao ex-governador de Goiás e presidente nacional do PSDB, Marconi Perillo.
O filtro cultural se torna político quando:
um beneficiário da Rouanet (Jockey SP) convive com fornecedores que pertencem ou se relacionam a familiares de um líder partidário.
há registro de notas questionáveis, contratos com construtoras “fantasma”, e uso de recursos previstos para recuperação patrimonial que ainda mostram obras inacabadas.
O cerne da questão não é apenas se houve desvio ou não — porque a investigação ainda está em curso —, mas como o modelo de incentivo permitiu essa conexão praticamente automática entre poder político, patrimônio privado e mecenato cultural.
A Rouanet, idealmente, cumpre o papel de democratizar a cultura, permitindo que empresas privadas invistam em arte com benefício fiscal. Mas quando um clube centenário, com vocação elitista, capta milhões e contrata fornecedores ligados a políticos que fazem parte da sua diretoria ou de seu conselho, o “mecenato” assume cheiro de canal de poder.
Vejamos alguns pontos críticos:
A prestação de contas do Jockey inclui notas fiscais que a prefeitura municipal já rejeitou, determinando auditoria.
Algumas empresas contratadas têm existência duvidosa — “apenas no Instagram”, conforme apuração.
As obras (como a restauração das tribunas do clube) continuam incompletas apesar do aporte milionário.
Por que isso importa? Porque cada real da Rouanet é dinheiro público que deixa de recolher imposto ou fica acessível via captação incentivada. Se o critério de seleção, execução ou fiscalização for permeável ao poder político, o mecanismo vira instrumento de privilégio.
É uma metáfora perfeita: o Jockey SP — espaço simbólico da elite paulistana às margens do Pinheiros — mobiliza recursos culturais federais e municipais para um projeto de restauração que parece servir mais ao clube e a seus interlocutores do que à promoção real da cultura ou do patrimônio.
E Marconi Perillo? Negou envolvimento direto. Mas o fato de empresas ligadas a seus familiares estarem contratadas e de ele ocupar cargos relevantes no contexto do clube torna o ambiente propício à dúvida — e à investigação.
Para quem quer entender os bastidores, resta perguntar:
Quem avalia se o projeto cultural cumpre sua função pública ou apenas beneficia sua rede?
Quem fiscaliza se os recursos captados pela Rouanet foram efetivamente aplicados no objetivo cultural declarado?
E quem responde quando o “patrimônio cultural” vira fachada para transações entre poder político e empresarial?
Se a cultura virou mercadoria e o incentivo fiscal virou regalia, o custo democrático dessa operação é alto. Porque há uma diferença entre patrimônio público — que pertence à sociedade — e clube privado que recebe subsídios com critério pouco claro.
O desafio, portanto, vai além das cifras: exige que se examine o mecanismo de incentivo cultural como parte integrante da arquitetura de poder no Brasil.
E exige que o público — que muitas vezes permanece externo ao teatro político-cultural — entenda que seu imposto está sendo usado não só para mostrar arte, mas para encenar poder.
Porque, no fim, a lei que deveria fomentar a diversidade cultural acaba revelando o que está por trás da cortina: quem tem acesso, quem lucra e quem decide a cena.

