Por que o Brasil ainda insiste em um modelo de trabalho que o mundo desenvolvido já considera ultrapassado? A escala 6×1, símbolo da rotina extenuante do varejo, atravessou décadas como se fosse inquestionável.
Trabalha-se seis dias, descansa-se apenas um. Simples, direto — e cruel. Agora, essa tradição começa a ser desafiada no Congresso. A PEC 8/25, proposta por Erika Hilton (PSOL-SP), coloca o tema sob os refletores: extinguir de vez o 6×1. Não é apenas uma questão técnica.
Trata-se de confrontar a herança de um país que historicamente normalizou a exploração sob o disfarce da produtividade. O argumento central é simples: se França, Itália, EUA e Canadá conseguem funcionar com jornadas menores, por que o Brasil precisa exigir tanto de seus trabalhadores? A comparação internacional não é detalhe retórico.
Espanha, Chile e México caminham na mesma direção, ajustando suas engrenagens econômicas a limites mais humanos. Renan Kalil, professor do Insper e procurador do Trabalho, resume: a experiência mundial prova que o encurtamento é viável. E sustentável.
Mas a questão vai além de viabilidade. O que está em jogo é a concepção de valor: medir trabalho em horas ou em resultados? O varejo brasileiro, altamente dependente da presença física, sempre se apoiou na lógica da disponibilidade constante. É como se o trabalhador fosse parte da vitrine.
A digitalização, porém, começa a corroer essa estrutura. Lojas online não funcionam em 6×1, funcionam 24/7. Quem sustenta esse sistema são algoritmos, não corpos.
O paradoxo é evidente: quanto mais o consumo migra para o digital, mais injustificável se torna manter trabalhadores presos a jornadas que imitam o século XIX. O empresariado, claro, reage. Argumenta que reduzir horas aumentaria custos e ameaçaria a competitividade.
É o mesmo discurso que se ouviu em todos os países que reduziram jornadas. E, no entanto, nenhuma dessas economias colapsou. Pelo contrário, em muitos casos, a produtividade cresceu.
Há aqui uma lição incômoda: menos horas não significam menos entrega. Significam, muitas vezes, menos exaustão e mais foco. No Brasil, porém, a cultura do “trabalhar até cair” ainda é vista como virtude. É o mito da resiliência como desculpa para precarização.
O avanço da PEC será lento, porque mexe em interesses profundos.
Mas o simples fato de estar no Congresso já sinaliza uma mudança de época. Se for aprovada, não será apenas uma vitória legislativa, mas um marco simbólico: o reconhecimento de que dignidade não se negocia em escala.
O trabalhador do varejo, tantas vezes invisível, pode se tornar protagonista de uma revolução silenciosa. Uma revolução do tempo.
No fim, resta a pergunta: estamos dispostos a aceitar que qualidade de vida é também produtividade? Ou continuaremos presos ao mito do 6×1 como se fosse inevitável?

