As recentes investigações conduzidas por autoridades paulistas levantam graves indícios de que o Primeiro Comando da Capital (PCC) estaria usando cerca de 98 lojas franqueadas d’O Boticário, 60 motéis e 14 prédios residenciais em Santos como parte de um esquema de lavagem de dinheiro. Essas operações integram a apuração da Operação Spare, que expande e aprofunda os resultados de ações anteriores contra organizações criminosas.
O quadro traz à tona participação empresarial formal em atividades ilícitas, com uso de negócios aparentes para dar cobertura a fluxos financeiros originados de crimes como tráfico de drogas, venda de combustíveis adulterados e jogos de azar.
Entre 2020 e 2024, as investigações identificaram movimentações financeiras bilionárias associadas aos empreendimentos ligados ao esquema. No caso das lojas franqueadas d’O Boticário, por exemplo, o valor movimentado foi estimado em cerca de R$ 1 bilhão no período, embora a emissão de notas fiscais tenha ficado em aproximadamente R$ 550 milhões.
Já os motéis atualmente sob suspeita teriam movimentado aproximadamente R$ 450 milhões no mesmo intervalo. Uma parcela substancial dessa movimentação teria sido distribuída como lucros e dividendos entre os sócios, muitos dos quais aparecem como “laranjas” ou interpostas pessoas.
A investigação também apura envolvimentos no mercado imobiliário, com prédios residenciais em Santos entre os empreendimentos suspeitos. Pelo menos 14 empreendimentos desse tipo estariam relacionados ao esquema, com movimentações que somam valores expressivos ao longo dos anos.
As ações fazem parte de uma força-tarefa entre o Ministério Público de São Paulo (MPSP), Receita Federal e outros órgãos estaduais, tendo sido deflagrada sob o nome de Operação Spare. A operação envolve mandados de busca e apreensão em mulheres cidades paulistas, dentre elas São Paulo, Santo André, Osasco, Barueri, Bertioga e Campos do Jordão.
Um dos principais suspeitos é Flávio Silvério Siqueira, conhecido como “Flavinho”, apontado como liderança no esquema. Segundo as investigações, ele utilizava negócios formais para acobertar recepção e movimentação de recursos com origem ilícita.
Também aparece como alvo Maurício Soares de Oliveira, proprietário de várias franquias d’O Boticário, que recebia depósitos em espécie significativos e apresentava crescimento de receita mesmo em períodos atípicos, como durante a pandemia.
Relatórios oficiais citam que as franquias emitiram bem menos notas fiscais do que o montante financeiro que movimentaram, o que reforça suspeitas de sonegação, ocultação de receita e uso de operações fiscais fictícias.
No segmento dos motéis, nomeações de CNPJ indicam que muitos estabelecimentos funcionavam sob nomes de terceiros (os “laranjas”), com os sócios verdadeiros mantendo controle indireto. Esse artifício é comum em esquemas complexos de lavagem para esconder beneficiários finais.
Quanto aos prédios residenciais em Santos, integrados ao esquema por meio de sociedades em conta de participação (SCPs) ou estruturas similares, o registro aponta uso de sócios ostensivos para figurar como responsáveis formais, enquanto sócios ocultos mantinham posições de investimento ou controle emocional dos ativos.
O volume bloqueado pelas autoridades até agora atinge cifras bilionárias em bens ligados aos investigados. Inclui imóveis, terrenos, veículos de luxo e outros ativos cujos valores somados ultrapassam, nas estimativas oficiais, vários bilhões de reais.
No setor de combustíveis, foram identificados 267 postos em atividade, com movimentações bilionárias, mas com recolhimento de tributos federais muito abaixo do esperado para a escala de receita declarada. Essa discrepância entre receita declarada, emissão fiscal e volume de movimentações financeiras é considerada um dos sinais mais fortes de lavagem de dinheiro.
Autoridades afirmam que o uso de fintechs foi estratégico para movimentar valores em espécie ou sem formalização típica de contas correntes tradicionais, permitindo transferências entre empresas fachada e ocultação de origem dos recursos.
Também aparece denunciado o uso de jogos de azar ilegais e postos de combustíveis com combustíveis adulterados como fontes de recursos ilícitos, que depois eram “lavados” por meio dos negócios legítimos.
Apesar das conexões identificadas, até o momento não há confirmação de que as lojas franqueadas ou os motéis estejam diretamente ligados formalmente ao corpo central da facção criminosa, nem que os donos sejam membros declarados do PCC. As investigações apontam, sobretudo, para ligações por meio de interpostas pessoas e indícios de conluio ou cumplicidade.
A defesa de alguns investigados nega participação consciente no esquema, alegando que foram usados como fachada ou que desconheciam a origem ilícita de parte dos recursos que passaram por suas empresas.
Do ponto de vista legal, o esquema investigado envolve crimes que podem acarretar penas elevadas, como lavagem de dinheiro, fraude fiscal, corrupção passiva e ativa, e possivelmente associação criminosa. O processo seguirá os trâmites judiciais, com possibilidade de bloqueio de bens, prisão de envolvidos e responsabilização penal.
Especialistas em segurança pública assinalam que esse tipo de infiltração do crime organizado em negócios formais representa desafio tanto para a fiscalização tributária quanto para o sistema bancário, exigindo maior integração entre órgãos e aprimoramento de mecanismos de transparência.
Para Santos, em particular, os prédios residenciais envolvidos no esquema representam uma faceta menos visível, mas potencialmente significativa: valorização imobiliária ocultando origem de recursos, uso de imóveis como investimento de risco e possível evasão fiscal.
A sociedade civil, especialistas e autoridades acompanham com atenção os próximos passos da operação. O desdobramento se dará em julgamentos, perícias, auditorias fiscais e eventualmente, responsabilização daqueles cujos dados e movimentações forem comprovadamente ilícitos.
O episódio reforça a importância de políticas públicas de prevenção à lavagem de dinheiro, auditorias mais rigorosas em franquias, transparência nas transações financeiras de estabelecimentos comerciais e controle sobre bens de alto valor no mercado formal. Esse tipo de estratégia institucional pode ajudar a reduzir infiltração criminosa em setores visíveis da economia.

