A decisão do governo Trump de suspender as tarifas globais de $10\%$ sobre café e outros produtos agrícolas, ao mesmo tempo em que mantém ou aplica uma taxa extra sobre os produtos do Brasil, é uma clara demonstração de que a política comercial norte-americana é guiada mais por interesses estratégicos e pressão bilateral do que por uma doutrina de livre comércio uniforme.
A Regra e a Exceção Punitiva
A suspensão das tarifas globais é um aceno positivo para a cadeia de suprimentos internacional e para o consumidor norte-americano, aliviando o custo de importação de commodities essenciais. É um reconhecimento de que a aplicação de tarifas amplas penaliza, muitas vezes, mais o comprador doméstico do que o exportador.
No entanto, o Brasil é tratado como uma exceção punitiva. A manutenção ou aplicação de taxas extras sobre produtos brasileiros sugere que Washington está utilizando o instrumento comercial como pressão diplomática ou retaliação a políticas específicas de Brasília, que podem envolver questões de câmbio, propriedade intelectual ou até mesmo alinhamento geopolítico.
A tarifa extra sobre o Brasil, neste contexto, não é apenas econômica; é uma ferramenta de negociação coercitiva que visa forçar concessões por parte do governo brasileiro em áreas de interesse americano.
O Peso da Soberania Agrícola
O Brasil, sendo uma superpotência agrícola e um dos maiores exportadores de café, soja e carne, é um alvo estratégico. A imposição de tarifas afeta diretamente o fluxo de caixa do agronegócio brasileiro, setor com forte peso político no país.
O café, em particular, é um mercado sensível. A tarifa extra dificulta a competitividade do grão brasileiro em solo norte-americano, beneficiando produtores de outros países (como Colômbia, Vietnã ou mesmo africanos) que agora podem ter uma vantagem de preço nos EUA.
O ceticismo deve notar que a política comercial de Washington, sob a gestão Trump, opera sob a filosofia de que o mercado deve ser negociado bilateralmente, e não multilateralmente. A tarifa é a moeda de troca usada para conseguir melhores termos em cada negociação individual.
O Desafio para o Governo Brasileiro
A manutenção da taxa extra impõe um desafio direto à diplomacia econômica brasileira. O governo precisa negociar a remoção dessas barreiras para proteger um de seus setores mais dinâmicos.
A mensagem é clara: o Brasil não é imune às políticas de “América Primeiro”. A relação comercial com os EUA exige não apenas lobby setorial, mas uma harmonização mais profunda em áreas que vão além do simples preço da commodity.
O café, nesse cenário, é apenas o símbolo visível de uma pressão comercial mais ampla e estratégica imposta por Washington.

