Na manhã da última segunda-feira, as atenções se voltaram para a intensificação da crise comercial entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, após um novo capítulo abrir-se no palco geopolítico. Em comunicação direta via videoconferência entre os dois líderes, Lula cobrou a revogação das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e pediu a suspensão das sanções contra autoridades nacionais — ao mesmo tempo em que Trump anunciou, poucas horas depois, a criação de uma tarifa de 25% sobre importações de caminhões médios e pesados, que entrará em vigor em novembro.
O diálogo, definido pelo governo brasileiro como “amistoso”, durou cerca de 30 minutos. Lula enfatizou a importância de reconstruir um relacionamento diplomático baseado no respeito mútuo e argumentou que as medidas dos EUA prejudicam a confiança e a cooperação entre os dois países. Trump, por sua vez, declarou que o encontro foi “positivo” e reforçou o interesse em retomar negociações. Entretanto, o anúncio da tarifa – feita em publicação na plataforma Truth Social – mostra um contraste claro entre postura diplomática e ações concretas.
A nova alíquota de 25% incidirá sobre caminhões médios e pesados importados por todas as nações, incluindo o Brasil, a partir de 1º de novembro. A medida está inserida em um pacote maior de políticas industriais voltadas à recuperação da produção doméstica norte-americana e ao fortalecimento da indústria logística americana. Washington justifica a iniciativa como necessária para proteger empregos e ampliar a competitividade das empresas nacionais.
Apesar de a decisão incidir sobre vários países, as importações brasileiras devem ser significativamente afetadas. O Brasil exporta anualmente cerca de US$ 1,2 bilhão em caminhões e chassis ao mercado americano, e a nova tarifa pode provocar queda nas exportações ou obrigar empresas a redirecionar produção. Montadoras instaladas no Brasil que atendem o mercado dos EUA podem enfrentar dificuldades para manter competitividade frente aos custos alfandegários.
Especialistas apontam que a medida não se limita ao setor automotivo. Ela sinaliza uma escalada na política “America First” promovida pela atual administração estadunidense e reforça a tendência protecionista crescente desde o início do segundo mandato. Com tarifas ampliadas sobre aço, alumínio e outros produtos industriais, o novo imposto sobre caminhões aparece como mais um golpe na estratégia brasileira de inserção no mercado internacional.
O governo brasileiro acompanha o desdobramento com cautela. Autoridades avaliam que a imposição da tarifa de 25% ainda não exige resposta imediata, mas indicam que o tema será incluído na agenda de negociações comerciais com Washington. O ministro da Economia declarou que o Brasil busca soluções em fóruns multilaterais, inclusive na Organização Mundial do Comércio (OMC), para contestar medidas consideradas arbitrárias.
A medida, por outro lado, chega em meio a um quadro já delicado. Em julho, Trump impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros em retaliação ao tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe. Lula considerou a decisão uma tentativa de interferência externa no sistema de justiça nacional e rebateu que o Brasil mantém superávit comercial com os EUA há mais de uma década.
A imposição sobre caminhões insere-se em uma série de barreiras alfandegárias que gradualmente vêm se espalhando por áreas-chave da economia global. Analistas dizem que o alvo estratégico da Casa Branca é reduzir a dependência industrial dos Estados Unidos de componentes estrangeiros e estimular “reshoring”, ou seja, o retorno de cadeias de produção ao território nacional.
No comunicado oficial, a Casa Branca alegou motivos de “segurança nacional” para justificar a tarifa, afirmando que o domínio tecnológico e de logística norte-americano é fundamental para a soberania econômica. O governo Trump também sugeriu que empresas estrangeiras instaladas no México e até mesmo parte da produção brasileira podem se tornar alvo de novos encargos tarifários no futuro.
Em paralelo, diplomatas brasileiros intensificaram articulações junto ao Mercosul e parceiros do BRICS, buscando apoio para uma resposta coletiva em fóruns internacionais. A expectativa é que temas como desenvolvimento industrial, regulação comercial e cooperação logística fiquem no centro das discussões multilaterais dos próximos meses.
Enquanto isso, autoridades em Brasília permanecem atentas a possíveis retaliações indiretas, como barreiras não tarifárias ou restrições a investimentos norte-americanos em setores estratégicos. A Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada este ano, ainda não foi acionada, mas não está descartada caso as tarifas se ampliem.
A imprensa internacional destaca que o episódio aproxima as relações Brasil–Estados Unidos de um nível crítico, equivalendo a uma guerra comercial bilateral. O risco de efeitos inflacionários nos EUA foi lembrado por Lula, que no passado já anunciou que recorrerá à OMC para contestar tarifas similares impostas a aço e alumínio.

