O presidente Donald Trump afirmou que o Brasil “fracassará” se não mantiver cooperação estreita com os Estados Unidos, durante um discurso proferido na Assembleia Geral das Nações Unidas. A declaração representa mais um capítulo nas tensões já existentes entre as duas nações, especialmente em razão de tarifas, sanções e acusações mútuas de ingerência política. A seguir, uma análise aprofundada dessa afirmação, seus desdobramentos e contextos.
Trump iniciou seu pronunciamento declarando: “Brazil is doing poorly and will continue to do poorly”, apontando que a situação econômica brasileira estaria piorando e permaneceria assim se o governo brasileiro não se alinhasse com as políticas americanas.
Ele acrescentou que o país só “pode ir bem trabalhando conosco” (“They can only do well when they’re working with us”) e que, isolado, “fracassará assim como outros fracassaram” (“Without us, they will fail just as others have failed. It’s true.”).
No discurso, Trump também criticou tarifas que, segundo ele, o Brasil impôs aos Estados Unidos de forma injusta e que causaram desequilíbrios comerciais. Ele alegou práticas como censura, repressão, corrupção judicial e perseguição a críticos políticos dos Estados Unidos. As acusações refletem uma crítica ampla à conduta institucional brasileira, segundo o presidente americano.
Ao mesmo tempo, o presidente Trump saudou suas próprias tarifas recentes impostas ao Brasil, justificando-as como resposta à interferência nos direitos dos cidadãos americanos. Ele afirmou que estas medidas foram necessárias para proteger a soberania e a segurança dos Estados Unidos. Essa retórica de “defesa da soberania” aparece como pilar central do argumento americano.
Curiosamente, apesar da crítica severa, Trump mencionou um encontro informal com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. Ele relatou que se encontraram por acaso no corredor da ONU, trocaram um abraço, e chegaram a combinar outro encontro na semana seguinte. Ele descreveu Lula como “um homem muito agradável” (“very nice man”) e disse que houve “excelente química” (“excellent chemistry”) entre eles, ainda que por breve tempo (“At least for 39 seconds we had excellent chemistry. It’s a good sign.”).
Essa dualidade — acusar ao mesmo tempo e estender uma oferta de diálogo — marca a abordagem de Trump: discurso duro, mas com abertura para negociações. Ele deixou claro que amizade, ou simpatia, não necessariamente suavizará as políticas, mas pode contribuir para melhor entendimento.
Do lado brasileiro, Lula respondeu indiretamente às acusações. Ele rejeitou medidas unilaterais ou arbitrárias e defendeu que o Brasil merece ser tratado como parceiro estratégico, não como ameaça. Ele afirmou que os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil, o que complica a narrativa de dependência unilateral.
Também foi ressaltado que, antes do anúncio das tarifas de 50%, o governo de Lula enviou carta formal em 16 de maio para negociar, fez reuniões e buscou diálogo, mas não obteve resposta satisfatória, somente reações incipientes ou declarações públicas. Essa tentativa de diálogo evidencia que o Brasil não aceita simplesmente imposições sem considerações prévias.
As tarifas impostas pelos EUA afetam uma parcela considerável das exportações brasileiras. Estima-se que 35,9% do valor exportado pelo Brasil para os Estados Unidos estará sujeito à tarifa de 50%. Esse impacto econômico preocupa diversos setores produtivos brasileiros, especialmente nos agronegócios, bens manufaturados e em segmentos que dependem fortemente do mercado norte-americano.
Em contrapartida, o Brasil ameaçou medidas recíprocas caso os Estados Unidos sigam adiante com suas tarifas. A Lei da Reciprocidade aprovada recentemente serve como base legal para que o governo brasileiro imponha tarifas similares sobre produtos americanos. Lula enfatizou respeito, mas disse que defender a soberania nacional e os interesses econômicos será prioridade.
A crise atual entre Brasil e Estados Unidos não surge do nada. Profundas discordâncias comerciais já vinham existindo, e o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, que recebeu sentença de 27 anos de prisão por tentativa de golpe após derrota eleitoral, se tornou ponto de atrito diplomático. Trump acusa que esse processo é parte de uma “witch-hunt” (“caça às bruxas”) política. O caso do ministro da Saúde do Brasil, Alexandre Padilha, que teve restrições de visto impostas pelos EUA, também exemplifica como medidas diplomáticas e econômicas se entrelaçam. Ele desistiu de participar da Assembleia Geral das Nações Unidas por causa dessas limitações. Essas restrições foram vistas pelo governo brasileiro como violação de normas internacionais de diplomacia.
A justificativa americana para as sanções e tarifas associa-se a alegações de que magistrados brasileiros terem tomado medidas que ferem liberdades civis, como suspensão de contas em redes sociais, repressão a opiniões políticas contrárias, entre outros. O ministro Alexandre de Moraes aparece com destaque nessas críticas.
Analistas comerciais avaliam que, além do impacto imediato nas exportações, essas disputas tarifárias podem gerar insegurança jurídica para investidores estrangeiros, aumentar os custos logísticos, reduzir competitividade de produtos brasileiros no exterior, e provocar reações em cadeias de suprimento globais. Para vários setores, o risco de interrupção de mercados ou de encontrar barreiras imprevistas se torna muito real.
Politicamente, as declarações de Trump visam consolidar sua base doméstica com discurso protecionista e de defesa de soberania, além de destacar os supostos prejuízos causados por práticas comerciais consideradas desleais. Essa postura costuma mobilizar apoio entre setores que se sentem lesados pelo comércio internacional. O governo brasileiro, por sua vez, tem buscado unir forças internas para resistir às pressões externas.
No cenário internacional, essa escalada retórica chama atenção para o papel do Brasil como ator relevante para ambientes multilaterais de comércio, clima, política externa. Países parceiros veem esse momento como possível ruptura no equilíbrio diplomático da região, caso a tensão se acentue. Observadores internacionais observam com cautela tanto os efeitos econômicos quanto os riscos de erosão institucional do diálogo.
É importante destacar que tarifas elevadas podem surtir efeito contrário ao pretendido, provocando inflação de insumos importados, elevação de preços para consumidores finais, retaliações comerciais e perda de mercados de longo prazo para exportadores. O Brasil poderá tentar diversificar seus parceiros comerciais para mitigar esses impactos.
Além disso, a narrativa de que o Brasil “fracassará” sem os Estados Unidos falha em reconhecer a multiplicidade de atores globais com os quais Brasília busca relações: União Europeia, China, países do Cone Sul, blocos como o BRICS. O Brasil tem promovido políticas de diversificação de sua inserção internacional, com acordos e acordos bilaterais múltiplos.
Nas próximas semanas, o encontro anunciado entre Trump e Lula será acompanhado com atenção. Se o diálogo prosperar, poderá abrir espaço para moderação retórica e ajustes de política, inclusive na aplicação de tarifas, sanções e mecanismos de reciprocidade. Essa reunião será decisiva para mapear se haverá convergência ou aprofundamento do confronto.
Concluindo, o pronunciamento de Donald Trump evidencia uma estratégia que combina imposição e oferta de parceria. Afirmar que o Brasil “fracassará” sem os Estados Unidos é parte de uma retórica mais ampla que busca reafirmar poder econômico, proteger interesses domésticos e condicionar relações internacionais por meio de exigências comerciais. Para o Brasil, a resposta tem sido insistir em diálogo, reciprocidade, defesa da soberania e consciência dos riscos econômicos. Este momento representará um teste de diplomacia e de capacidade de mediação diante de ambientes globais cada vez mais polarizados.

