A morte de Damaris Vitória Kremer da Rosa, apenas 74 dias após ser absolvida, é uma tragédia que expõe o colapso da justiça humana e a crueldade do sistema penal. Esta não é uma fatalidade; é uma execução silenciosa cometida pela burocracia, pelo tempo e pela negligência.
A jovem de 26 anos passou seis anos presa preventivamente, acusada de envolvimento em um assassinato. O Ministério Público alegava que ela ajudou a planejar o crime, mas a defesa sustentou que ela apenas relatou ter sido vítima de estupro pela vítima, e que seu namorado agiu sozinho.
A absolvição pelo júri em agosto de 2025 provou sua inocência. No entanto, a verdadeira sentença já havia sido imposta: um câncer de colo de útero, diagnosticado na prisão, que a levou à morte dois meses depois.
O ponto mais revoltante é a negativa dos pedidos de liberdade, mesmo com Damaris relatando dores e sangramentos. A Justiça rejeitou os apelos sob a fria justificativa de que não havia comprovação de doença grave.
Isso revela a desumanização do sistema prisional, onde o sofrimento físico de uma pessoa é tratado como um artifício legal a ser comprovado, e não como uma urgência médica.
A Justiça falhou em duas frentes:
- Falha no Julgamento: Manteve-a presa preventivamente por seis anos, para só então reconhecer a inocência.
- Falha Humanitária: Negou-lhe a atenção e a liberdade para tratar o câncer, tratando a prisão como um recinto de punição, e não de custódia.
A conversão da prisão em domiciliar só ocorreu em março de 2025, quando o quadro de saúde já estava em fase terminal. A liberação veio tarde demais, após a doença já ter se tornado a sentença de morte.
O caso de Damaris é um grito que exige uma reforma urgente na aplicação da prisão preventiva, especialmente no que tange à saúde e à presunção de inocência. A prisão nunca pode se tornar uma antecipação da pena capital.
A Justiça a absolveu no papel, mas a manteve refém da doença até o fim. O que resta à família não é o alívio da inocência, mas a dor de um luto que tem um culpado indireto: a ineficácia e a frieza do sistema legal.
A morte de Damaris Vitória Kremer da Rosa é o trágico memorial de que a injustiça pode matar, mesmo sem a caneta de um juiz.

