Um cachorro jurado de morte por traficantes.
A frase parece saída de uma sátira distópica, mas descreve um episódio real ocorrido na comunidade Para-Pedro, em Irajá, Zona Norte do Rio.
O animal, batizado de Irajá pelos moradores, foi alvejado na pata dianteira e perdeu um dedo.
Seu crime? Nenhum — exceto viver no território errado, na hora errada.
Em menos de 24 horas, dois cães foram atingidos por tiros em diferentes comunidades cariocas.
Coincidência? Pouco provável.
A violência contra animais em áreas de conflito não é um fato isolado.
Ela é sintoma de um ecossistema de poder no qual a vida — humana ou não — é descartável.
O cachorro, nesse contexto, deixa de ser apenas um animal de estimação.
Torna-se um corpo vulnerável que simboliza o grau de degradação das normas sociais.
Atirar em um cão não é apenas crueldade.
É uma mensagem: “aqui, decidimos quem pode existir”.
Quando até animais são jurados de morte, o recado é claro: não há inocentes.
A comunidade vive sob um estado de exceção permanente, onde regras básicas de convivência desaparecem.
Esse fenômeno expõe um paradoxo.
Enquanto cidades modernas debatem políticas de bem-estar animal, no Rio cães ainda são tratados como danos colaterais da guerra urbana.
A cena de Irajá sendo socorrido em um hospital veterinário mobiliza empatia.
Mas quantos “Irajás humanos” não têm o mesmo desfecho de cuidado e atenção?
O episódio também desafia nossa hierarquia de indignação.
A violência contra animais costuma gerar revolta instantânea.
Mas, quando se trata de pessoas, muitas vezes a comoção se dilui na naturalização da barbárie cotidiana.
Não se trata de comparar sofrimentos.
Trata-se de perceber como a lógica da bala indiscriminada não escolhe alvo.
O cachorro baleado é, de certa forma, o espelho do morador invisível: ambos são silenciados por uma geopolítica do medo.
Nesse sentido, a recuperação de Irajá no hospital veterinário é mais do que um ato médico.
É um raro gesto de reparação simbólica em um território acostumado ao abandono.
O caso nos força a perguntar: se nem os cães estão a salvo, o que resta da ideia de segurança comunitária?
E, sobretudo: quantos outros “jurados de morte” — de quatro ou duas patas — seguirão sendo alvo antes que a cidade encare a violência não como exceção, mas como sistema?

