Seria possível uma criança de sete anos compreender plenamente o que significa uma transição de gênero? Essa pergunta, que deveria ser tratada com cuidado clínico e afetivo, hoje se vê tragada para o centro de uma batalha política e ideológica no Texas.
O governador Greg Abbott declarou recentemente que a transição de gênero de um menino dessa idade está sob investigação. O anúncio não é neutro: carrega consigo uma mensagem de vigilância estatal sobre a vida privada das famílias.
Ao transformar uma decisão familiar e médica em questão de segurança pública, o governo abre espaço para uma narrativa em que pais e médicos podem ser vistos como suspeitos. Trata-se de um deslocamento perigoso: o íntimo se torna assunto de polícia.
Esse movimento ecoa uma tendência mais ampla. A pauta de identidade de gênero, em vez de ser debatida como questão de saúde mental e direitos individuais, tem sido usada como arma eleitoral. No Texas, o tema vira termômetro para medir fidelidade política.
Há quem argumente que a intervenção estatal é necessária para proteger crianças de decisões irreversíveis. Mas há também o outro lado: o risco de que o Estado deslegitime famílias e profissionais da saúde que atuam com base em critérios médicos reconhecidos.
O cerne da questão é: quem deve decidir sobre a identidade de uma criança — a família e especialistas, ou o governo? A resposta não é simples, mas o tom investigativo adotado pelo governador já sugere de antemão quem ele vê como culpado.
O caso expõe uma tensão clássica do conservadorismo texano: o discurso de liberdade individual cede espaço a uma vigilância rigorosa quando o tema é moralidade e costumes. O paradoxo é evidente e desconfortável.
Psicólogos alertam que a identidade de gênero na infância não se fixa de forma definitiva. É um processo fluido, marcado por descobertas, regressos e incertezas. Tratar esse percurso como crime é reduzir a complexidade da experiência humana.
Ao mesmo tempo, especialistas reconhecem que intervenções médicas irreversíveis em crianças tão jovens levantam questões éticas sérias. O debate existe e é legítimo. O problema é quando ele se transforma em palanque político.
A exposição midiática de um menino de sete anos nesse contexto não protege; pelo contrário, agrava a vulnerabilidade. A criança deixa de ser um sujeito em formação para virar símbolo de uma disputa partidária.
Há também implicações jurídicas. Se a investigação for conduzida como casos anteriores, pais podem ser acusados de “abuso infantil” simplesmente por buscar apoio médico. Isso redefine os limites da autoridade parental.
Na prática, a política texana projeta sobre o futuro dessa criança uma sombra pesada. Não se trata apenas de sua identidade, mas de como será visto por colegas, vizinhos e pela própria comunidade. O estigma já foi instalado.
Essa instrumentalização da infância não é exclusividade americana. Em diferentes países, temas ligados à sexualidade e gênero de menores são apropriados por governos que buscam galvanizar suas bases eleitorais.
A lógica é simples: ao evocar a figura da criança, mobiliza-se o instinto de proteção da sociedade. Mas o que se protege, de fato, não é o menor — é o capital político de quem levanta a bandeira.
O caso também serve como metáfora de uma era em que a intimidade deixou de ser sagrada. O que deveria estar restrito a consultórios e lares agora é discutido em coletivas de imprensa e assembleias legislativas.
No fundo, o episódio nos obriga a refletir sobre o conceito de infância. Ela é um tempo de experimentação ou uma fase a ser rigidamente controlada pelo Estado? O Texas escolheu a segunda opção, com todas as consequências que isso implica.
O menino de sete anos dificilmente compreenderá por que seu nome virou manchete. Mas sentirá os efeitos: olhares inquisitivos, comentários sussurrados e talvez até rejeições futuras. O peso da política já repousa sobre seus ombros frágeis.
Se há algo que a sociedade deveria garantir a qualquer criança é o direito de viver sua infância sem ser reduzida a bandeira ideológica. A esse menino, essa chance foi negada.
A grande questão que resta é se conseguiremos resgatar a delicadeza do tema antes que outras infâncias também sejam sequestradas pela guerra cultural. Até lá, cada caso semelhante será menos sobre a criança em si e mais sobre a narrativa que políticos desejam contar.

