A pacata cidade no sul de Goiás foi confrontada nesta sexta-feira (27) com os detalhes sombrios de uma das maiores tragédias de sua história recente. Em uma coletiva de imprensa tensa e carregada de emoção, o delegado Felipe Sala, responsável pela investigação, apresentou o laudo pericial conclusivo sobre a morte dos irmãos Miguel Araújo Machado, de 12 anos, e Benício Araújo Machado, de 8. Segundo as investigações, o próprio pai das crianças, o secretário de Governo de Itumbiara, Thales Naves Alves Machado, de 40 anos, foi o autor dos disparos que tiraram a vida dos filhos enquanto eles dormiam.
O crime, que chocou o estado no início de fevereiro, teve sua dinâmica esclarecida pela Polícia Civil. O laudo confirma que cada criança foi atingida por um único tiro na cabeça, disparado à queima-roupa, indicando que não houve qualquer chance de defesa ou reação. De acordo com o delegado Sala, os exames balísticos e de DNA confirmam que Thales agiu totalmente sozinho na residência. A frieza do ato, executado enquanto os meninos estavam em sono profundo, é um dos pontos que mais impressionou os peritos criminais envolvidos no caso.
A sequência de eventos daquela noite fatídica começou a ser desvendada a partir do depoimento do prefeito de Itumbiara, Dione Araújo, que é avô materno das crianças. Foi ele o primeiro a chegar ao local do crime, por volta da meia-noite do dia 11 de fevereiro, após suspeitar do silêncio e da falta de respostas do genro. Ao entrar na residência, o prefeito deparou-se com o cenário devastador que mudaria para sempre a trajetória de sua família e da administração municipal, que desde então vive em clima de luto e constrangimento.
O delegado Felipe Sala foi enfático ao afirmar que o crime foi minuciosamente premeditado. A investigação reconstruiu os passos de Thales Naves nas horas que antecederam os disparos, identificando comportamentos que fogem à normalidade e que apontam para uma preparação deliberada. “A sequência de atitudes tomadas pelo secretário demonstra que não foi um ato de impulso, mas algo planejado com antecedência para garantir que o resultado fosse letal e sem interrupções”, declarou o responsável pelo inquérito durante a coletiva.
O “e daí?” institucional desta tragédia reside no impacto político e social de ter um alto membro da administração pública envolvido em um crime de tamanha brutalidade. Itumbiara, um polo econômico e político importante de Goiás, viu-se paralisada pela notícia. Thales era uma figura de confiança do prefeito e ocupava uma das pastas mais estratégicas do governo local. A queda de um homem público em um abismo de violência doméstica levanta discussões urgentes sobre saúde mental, sinais de alerta ignorados e a pressão do poder sobre as relações familiares.
O inquérito policial detalhou que a arma utilizada no crime pertencia ao próprio secretário e estava devidamente registrada, o que facilita o rastreio da materialidade. Thales Naves, que também tirou a própria vida após matar os filhos, não deixou cartas ou mensagens que explicassem de forma clara as motivações do crime, deixando para a polícia a tarefa de montar o quebra-cabeça através de depoimentos de pessoas próximas e análise de dispositivos eletrônicos. A principal linha de investigação sugere um quadro de depressão severa ou colapso emocional relacionado a questões pessoais e profissionais.
A repercussão em Itumbiara é de silêncio e dor. O colégio onde Miguel e Benício estudavam suspendeu as aulas em homenagem aos alunos e ofereceu suporte psicológico aos colegas, que agora precisam processar a perda de amigos para uma violência perpetrada por quem deveria protegê-los. A imagem das crianças, descritas como alegres e dedicadas, contrasta com o relato técnico da perícia, criando uma ferida que a comunidade dificilmente conseguirá cicatrizar em curto prazo.
Dentro da prefeitura, o clima é de desolação. Dione Araújo, além de lidar com a perda irreparável dos netos, precisa manter a governabilidade de uma cidade em choque. O gabinete do prefeito tornou-se um local de vigília discreta, enquanto assessores tentam separar a imagem da gestão do escândalo pessoal que atingiu a família do mandatário. Para a oposição política, o caso é tratado com cautela respeitosa, dada a gravidade humana, mas as discussões sobre o perfil de quem ocupa cargos de confiança tornaram-se inevitáveis nos bastidores.
A perícia psicológica post-mortem de Thales Naves é uma das ferramentas que a polícia utiliza para tentar encontrar uma resposta “por que”. Analistas buscam no histórico do secretário comportamentos passivo-agressivos ou sinais de instabilidade que possam ter sido negligenciados. A morte dos filhos como forma de punição à esposa (mãe das crianças) ou como um ato de “proteção” distorcida diante de uma percepção de fracasso pessoal são hipóteses que a psicologia forense explora em casos de filicídio seguidos de suicídio.
O impacto social do crime em Goiás reacendeu o debate sobre o desarmamento e o acesso a armas por civis e servidores públicos. Embora o crime tenha sido cometido com uma arma legal, o fato de ela ter sido usada contra crianças indefesas dentro de casa alimenta os argumentos daqueles que defendem controles ainda mais rigorosos e avaliações psicológicas periódicas para detentores de porte. A tragédia de Itumbiara torna-se um argumento emocional forte em um ano onde a legislação de armas volta ao centro das atenções no Congresso Nacional.
O encerramento do inquérito policial deve ocorrer nos próximos dias, agora que os laudos periciais confirmaram a autoria e a dinâmica. Com a morte do autor, não haverá processo judicial criminal, restando à sociedade e às famílias o peso das perguntas sem resposta. O delegado Felipe Sala encerrou a coletiva reforçando que o caso serve como um alerta amargo de que a violência pode estar escondida atrás de cargos de prestígio e famílias aparentemente estáveis, exigindo uma vigilância constante sobre a saúde mental de quem nos cerca.
Por fim, a história de Miguel e Benício encerra-se com a frieza de um laudo lido em uma coletiva de imprensa, mas seu legado em Itumbiara será o de uma saudade eterna e de um pedido silencioso por proteção às crianças. A cidade tenta retomar sua rotina, mas as luzes da prefeitura e as salas vazias da escola local servem como lembretes constantes de que o poder e o status não blindam ninguém contra a tragédia humana. A justiça terrena encerra seu papel com este laudo, deixando o restante para o julgamento da história e da memória coletiva.

