O assassinato brutal de uma mulher trans, espancada até a morte por membros do Comando Vermelho (CV), não é um crime passional ou um incidente isolado de homofobia. É um ato de terrorismo moral e uma declaração explícita de poder regulatório.
Este crime transcende a violência individual e se estabelece como a execução de uma lei paralela imposta pelo tráfico nas comunidades que ele domina.
O CV age como um “tribunal da sombra”, ditando códigos de conduta que vão muito além da venda de drogas. Eles impõem uma moralidade rígida, frequentemente ultraconservadora, na ausência da autoridade legal do Estado.
O tráfico, que se beneficia da falha do Estado em prover serviços, paradoxalmente se alinha a narrativas de controle social e intolerância para consolidar seu domínio.
A vítima, uma mulher trans, torna-se o alvo perfeito: ela viola duas regras do CV – a lei do Estado (a ilegalidade do tráfico) e a lei moral imposta pela facção (o preconceito violento).
O espancamento até a morte não é apenas punição; é uma performance pública destinada a servir de exemplo. É a demonstração brutal de que o CV tem o direito de decidir quem vive e como se vive naquele território.
A facção estabelece uma espécie de Sharia da Intolerância, onde a sexualidade e a identidade de gênero que fogem ao padrão normativo são tratadas como crimes passíveis da pena capital.
Isso revela a natureza híbrida e perversa do crime organizado: ele é economicamente liberal (na venda de drogas) e socialmente fascista (no controle da vida privada).
O Comando Vermelho, ao se colocar como zelador de uma ordem moral retrógrada, atrai e coapta indivíduos com discursos de ódio, usando a violência para purgar o que considera desvio.
Para o morador da comunidade, a escolha é simples e cruel: viver sob o manto de proteção do Estado de Direito ou sob a arbitrariedade letal do código penal do tráfico.
A morte da mulher trans é um grito que exige que a sociedade pare de ver a violência do tráfico apenas sob o prisma econômico-policial. Ela é, fundamentalmente, uma questão de Direitos Humanos e Cidadania.
O que o Comando Vermelho rouba é o direito básico de existir com dignidade e autonomia dentro do próprio bairro, na própria casa.
O Estado, ao ser ausente, não apenas deixa um vácuo de segurança; ele terceiriza o poder regulatório e moral para a facção.
Quando o tráfico mata por preconceito, ele envia um recado claro: a lei da terra aqui sou eu, e a sua identidade é ilegal.
Este ato de barbárie expõe a fragilidade da vida LGBT+ nas áreas dominadas e a necessidade de políticas públicas de segurança que considerem a vulnerabilidade interseccional.
A polícia civil investigará o homicídio, mas a urgência é investigar a estrutura de poder que autorizou esse linchamento moral.
Enquanto o crime organizado puder usar a intolerância como ferramenta de controle social, a cidadania plena será apenas uma promessa vazia no asfalto.
A morte da mulher trans é a materialização do horror da tirania local. É o resultado previsível de permitir que o crime não apenas venda drogas, mas governe vidas.
É imperativo que a sociedade e o Estado entendam: a soberania do crime se consolida através da violência extrema contra os mais vulneráveis, impondo um silêncio aterrorizante em toda a comunidade.
A verdadeira batalha contra o tráfico não é apenas pela rota da droga, mas pela retomada da autoridade moral e legal sobre as vidas que hoje são julgadas e executadas pelo Tribunal da Sombra.

