Uma mulher trans de 45 anos, identificada como Cristina Maciel Oliveira, foi brutalmente assassinada a socos e chutes na tarde da última segunda-feira em plena via pública na região de Venda Nova, em Belo Horizonte. O agressor, de 24 anos e ex-companheiro da vítima, foi preso em flagrante, segundo a corporação de segurança.
O crime ocorreu na avenida Padre Pedro Pinto, onde a vítima foi agredida até a morte. Testemunhas viram o suspeito derrubar Cristina no chão e desferir chutes contra sua cabeça e corpo. A ação durou cerca de 12 segundos, conforme relato de pessoas no local.
De acordo com boletim de ocorrência da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), o motivo do crime teria sido a recusa da vítima em continuar o relacionamento. O agressor não aceitava que a mulher pedisse o término e que ele deixasse o imóvel em que moravam. Ele confessou a agressão à polícia.
Cristina era ativista social conhecida em diversos centros de apoio à população trans e travesti. Segundo o Instituto Nenuca de Desenvolvimento Sustentável, ela colaborava em projetos voltados à dignidade e aos direitos das pessoas trans e travestis. Em nota, a entidade afirmou que sua morte “não pode ser tratada como mais uma estatística”.
O agressor foi localizado pela PM a poucos metros do local do crime e conduzido à delegacia. Conforme a polícia, ele alegou que o término da relação seria “sacanagem” e se recusou a sair da residência, o que teria motivado a discussão que terminou em homicídio.
Essa morte foi classificada como transfeminicídio por entidades da sociedade civil. O termo se aplica quando mulheres trans ou travestis são assassinadas em razão de sua identidade de gênero, mormente em contexto de ódio e discriminação. A distinção se justifica pelo caráter específico da violência dirigida a essas mulheres.
O episódio expõe a vulnerabilidade acentuada das mulheres trans no Brasil. O país lidera rankings de assassinatos de pessoas trans e travestis, segundo levantamentos realizados nos últimos anos, o que evidencia o abandono institucional e social dessas identidades de gênero.
Especialistas em direitos humanos destacam que relações de poder, controle afetivo e machismo se manifestam também dentro das dinâmicas de parceiros trans ou não-trans. Em muitos casos, o término de relacionamentos torna-se um gatilho para a violência letal, especialmente quando o agressor se considera dono ou controlador da parceira.
As imagens captadas por câmeras de segurança no local foram compartilhadas com a polícia e mostram a sequência do ataque. A vítima, ainda com vida ao ser encontrada pelos agentes, não resistiu aos ferimentos e teve óbito confirmado no local.
Entidades de apoio a pessoas LGBTQIA+ manifestaram indignação e exigem que o caso seja tratado com prioridade, que a investigação seja célere e que a motivação de transfobia seja considerada na tipificação do crime. A deputada federal Duda Salabert, ativista na causa, reforçou que “Cristina era inspiradora” e “sua luta não pode terminar aqui”.
Em termos jurídicos, a Lei nº 13.104/2015 qualifica o feminicídio como forma de homicídio cometido “por razões da condição de sexo feminino”, e a inclusão de mulheres trans nesse tipo de crime ainda enfrenta desafios práticos, sobretudo no reconhecimento oficial da motivação de gênero.
No âmbito policial, foi registrado que o agressor apresentava ferimentos leves, possivelmente decorrentes de confronto ou intervenção; entretanto, o foco permanece no fato de que ele agiu impulsionado pela recusa da mulher em continuar a convivência. A dinâmica do crime se encaixa no padrão de violência íntima de gênero, com desfecho fatal.
A comunidade trans e travesti acompanha o desenrolar do caso acompanhando as diligências e esperançosa por justiça. Organizações afirmam que esse tipo de crime só deixará de ocorrer em escala se houver maior presença institucional, políticas públicas efetivas e responsabilização sistemática dos autores.
Para além da atribuição criminal, o episódio lança luz sobre a negligência institucional: muitos espaços de acolhimento, denúncia e proteção para mulheres trans não têm cobertura plena ou são subutilizados, o que perpetua ciclos de violência invisibilizados.
No tocante à prevenção, ativistas defendem maior atenção ao acompanhamento de mulheres trans em relações afetivas, com foco em sinais de controle e agressão inicial, além de ampliação dos mecanismos de proteção para que o fim de relacionamentos não se torne o gatilho para ataques mortais.
A mídia nacional foi alertada para a importância de tratar casos assim com rigor técnico, destacando o fator de identidade de gênero e não apenas a violência doméstica genérica. O reconhecimento de transfeminicídio exige clareza no enfoque.
Internacionalmente, o Brasil ainda se destaca de forma negativa no que diz respeito à violência contra mulheres trans. A combinação de machismo, misoginia e transfobia produz um cenário no qual o corpo trans é frequentemente alvo de criminalização e morte.
Os familiares de Cristina aguardam o laudo pericial e a confirmação oficial da motivação. Até o fechamento desta reportagem, o agressor permanecia detido em local não revelado e aguardava audiência de custódia.

