A projeção de Elon Musk de que, em até 20 anos, trabalhar será opcional e que o dinheiro perderá relevância é um diagnóstico radical que se baseia na crença no potencial exponencial da Inteligência Artificial (IA) e da automação.
Essa visão não é apenas uma previsão tecnológica, mas uma proposta de utopia que desafia o próprio contrato social do capitalismo contemporâneo.
O cerne da tese de Musk reside na capacidade da IA de suprir quase todas as necessidades humanas de produção. Se as máquinas puderem gerar bens, serviços e até inovação com eficiência máxima, o trabalho humano, especialmente o repetitivo e não criativo, se tornará obsoleto.
A consequência lógica é que a escassez, base do valor do dinheiro, diminuiria drasticamente.
O ceticismo nos obriga a confrontar a utopia com a realidade. A transição para uma sociedade de “trabalho opcional” exigiria uma revolução na distribuição de riqueza e um redesenho completo do sistema de incentivos. Quem seria o dono da IA que produz toda a abundância?
Se o controle da tecnologia permanecer concentrado, a ausência de trabalho para as massas não resultará em lazer, mas em desemprego estrutural e miséria, com a riqueza acumulada no topo.
A ideia de que o dinheiro perderá relevância implica que a sociedade adotaria uma forma de renda básica universal ou um sistema de abundância compartilhada, onde o acesso a bens e serviços seria garantido. Entretanto, a história mostra que a tecnologia cria novos empregos, mas raramente resolve, por si só, o problema da desigualdade.
A automação tem historicamente gerado mais-valia para os proprietários do capital, não para a força de trabalho que foi substituída.
O “e daí” da projeção de Musk é a necessidade de debater o propósito humano em um cenário pós-trabalho. Se a sobrevivência estiver garantida, o desafio será preencher o vazio existencial.
Musk vislumbra uma era focada na criatividade, no lazer e nas relações interpessoais, mas a transição para essa nova realidade é o que realmente importa. A sociedade precisa se preparar não para a tecnologia em si, mas para as implicações sociais e políticas da riqueza automatizada.

