O debate sobre segurança pública e controle da criminalidade reavivou a atenção internacional com as recentes declarações do presidente Nayib Bukele, de El Salvador, que defende uma política de “tolerância zero” contra gangues e criminosos, justificando práticas duras de encarceramento como parte de sua estratégia de Estado. As condições nas penitenciárias do país — principalmente na megacárcere CECOT, inaugurada em 2023 — voltam ao centro do debate, dividindo opiniões entre apoio popular e críticas de organismos de direitos humanos.
Desde março de 2022, quando Bukele impôs um regime de exceção, milhares de pessoas foram presas, muitas sem mandados judiciais ou provas concretas, sob a acusação de ligação com gangues. Segundo estimativas de entidades de direitos humanos, mais de 86 mil detidos já teriam sido registrados, o que transformou El Salvador na nação com maior taxa de encarceramento per capita do mundo.
A CECOT, com capacidade para cerca de 40 mil presos, tornou-se símbolo dessa política. As autoridades afirmam que o estabelecimento abriga criminosos perigosos, e Bukele mesmo disse oferecer o espaço para presos dos Estados Unidos, com o argumento de contribuir para segurança global.
Contudo, críticos alertam que o sistema impõe restrições severas: detentos vivem sem visitas, sem acesso a atividades de reabilitação, educação ou assistência adequada, o que, segundo relatos, agrava a situação de vulnerabilidade dentro do cárcere.
Há denúncias consistentes de detenção arbitrária, tortura, maus-tratos e mortes em custódia, muitas vezes envolvendo pessoas sem ligação comprovada com crimes. Grupos como Human Rights Watch (HRW) e Amnesty International apontam para um verdadeiro colapso do sistema de justiça: direito à defesa praticamente suspenso, julgamentos coletivos, ausência de transparência e prerrogativas que ferem padrões internacionais de direitos humanos.
O resultado desse “pacto de segurança e repressão” é uma queda drástica nas taxas de homicídios: o governo celebra que, segundo dados oficiais, El Salvador acumulou mais de 900 dias sem assassinatos registrados — uma conquista histórica para um país que já foi um dos mais violentos do mundo.
Para Bukele, a redução da criminalidade legitima o endurecimento. Ele tem criticado organizações de direitos humanos por não reconhecerem que, na sua visão, assegurar que as pessoas “não sejam assassinadas, estupradas ou agredidas” também é proteger direitos humanos. “É evidente que as chamadas organizações de defesa dos direitos humanos não consideram que não ser assassinado… seja um direito humano”, chegou a afirmar.
Entre parte da população salvadorenha, o sentimento de segurança retornada — esmorecida anos atrás por gangues violentas — gera apoio aos métodos. Segundo pesquisas recentes, mais de 85% aprovam a gestão de Bukele, refletindo o cansaço histórico com a criminalidade.
Apesar disso, as críticas não se resumem a casos específicos: a forma como o sistema penal foi reestruturado, com leis e decretos que suprimem garantias legais, preocupa especialistas em direitos humanos e Justiça internacional. A simples suposição de “associação ilícita” ou denúncias anônimas já têm servido de base para prisões em massa.
Além disso, o superlotação carcerária e a deterioração das condições dentro de unidades como a CECOT multiplicam os relatos de abusos, com presos privados de contato com familiares, sem atendimento médico adequado, e expostos a tortura ou violência.
Para quem apoia a política de Bukele, o argumento principal é a restauração da ordem e da segurança pública. A sensação de estabilidade — mesmo que conquistada à custa de liberdades individuais — gera esperança entre aqueles que viveram décadas de medo, extorsão e violência urbana. Muitos enxergam na rigidez penal a única alternativa real para a criminalidade persistente.
Por outro lado, defensores dos direitos humanos alertam para o risco de que o Estado consolide um modelo de controle social que despreza garantias fundamentais, abrindo caminho para abusos sistemáticos — inclusive contra inocentes. A transferência de crianças para prisões adultas, aprovada em 2025, provocou forte repúdio internacional, por violar padrões básicos de justiça juvenil.
O debate internacional ganha relevância porque a estratégia de Bukele ultrapassa as fronteiras de El Salvador: a recente oferta de alojar presos estrangeiros condenados — inclusive dos EUA — transformou a nação em um laboratório de terceirização penitenciária, com implicações geopolíticas e humanitárias.
Diante do contexto, a sociedade salvadorenha parece dividida entre o alívio causado pela queda da criminalidade e o receio pelas consequências de um poder privado de prisão ampliado, discreto e com pouca transparência. A polarização revela dilemas profundos sobre justiça, segurança e direitos fundamentais.
Para observadores externos, o caso de El Salvador sob Bukele é um alerta sobre os perigos de soluções autoritárias para problemas complexos como violência e pobreza. A ânsia por resultados imediatos pode abrir precedentes perigosos, corroendo mecanismos democráticos e garantindo impunidade institucional.
Por outro lado, o governo defende que sem medidas drásticas não haveria como combater organizações criminosas que, por anos, dominaram territórios, aterrorizando comunidades, controlando extorsões e impedindo o crescimento social e econômico. A narrativa oficial sustenta que segurança e ordem são pré-requisitos para progresso, educação e investimentos.
Em seu discurso recente, Bukele combinou essa estratégia de segurança com promessas de investimento em infraestrutura social: ele defende que os recursos poupados da violência poderiam ser redirecionados para saúde, educação e desenvolvimento, tentando refutar críticas sobre supostas prioridades equivocadas do governo.
Mas para muitos especialistas internacionais, essa proposta é paradoxal: como confiar em investimentos sociais robustos quando o uso de prisões e o poder de deter parecem ser empregados de forma indiscriminada e sem ordem judicial clara? A questão central é se a segurança vem à custa da justiça e dos direitos básicos.
No fim, a trajetória de El Salvador revela um dilema contemporâneo: a tentação de priorizar resultados tangíveis de segurança imediata — com queda expressiva de homicídios e sensação de ordem — versus o risco real de erosão de garantias democráticas e direitos civis. A escolha feita pelo governo Bukele reflete uma aposta clara: no conflito entre liberdade e segurança, valoriza-se a segunda como pilar de reconstrução social.
O mundo observa com atenção: se o modelo se sustentar num ambiente de controle, repressão e pouca transparência, poderá servir de exemplo controverso para outros países dividido entre criminalidade, desespero e busca por estabilidade. A discussão sobre “sem chão, sem cobertor, sem travesseiro, sem visitas, sem chance de fuga” — descrita por defensores de direitos humanos para quem está preso na CECOT — continua. O conflito entre segurança e dignidade segue em aberto.

