Se um único tratamento custa R$ 3 milhões, como pode ainda ser visto como “eficiente e econômica”? Essa aparente contradição reside no cerne da nova geração de terapias contra o câncer — especialmente a tecnologia conhecida como Terapia CAR‑T. Estudos no Brasil estimam que essa terapia, aplicada com células modificadas do próprio paciente, pode levar a ganhos clínicos relevantes e, a longo prazo, economia para o sistema de saúde.
Mas o “como” e o “e daí?” por trás desse argumento merecem ser examinados com cuidado.
Aqui vai o que se sabe — e o que ainda permanece em aberto:
A terapia CAR-T parte de uma lógica radicalmente diferente da quimioterapia ou radioterapia convencionais: extrai-se uma subpopulação de linfócitos T do paciente, modifica-se geneticamente para reconhecer marcadores tumorais específicos e reinfunde-se para que ataquem as células neoplásicas.
Hoje, esse tipo de tratamento já está aprovado em alguns tipos de câncer hematológico (leucemias, linfomas), mas não (ou ainda pouco) em tumores sólidos — a barreira do ambiente tumoral hostil e da “evasão imunológica” permanece.
O custo é astronômico. Conforme reportagem recente, no Brasil este tipo de terapia pode custar “entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões” por paciente se aplicado com tecnologia importada ou dependente de cadeia internacional.
E o argumento de eficiência? Está na combinação de dois fatores:
Menos tempo de tratamento intensivo, menos internações prolongadas, menos efeito colateral extremo. Por exemplo, um estudo do Instituto Butantan sugere que o câncer consome cerca de R$ 3 bilhões por ano no Sistema Único de Saúde (SUS) e que, se a produção nacional de CAR-T for viabilizada, o custo por paciente poderia despencar.
A possibilidade de “reduzir o lote” de pacientes que já passaram por múltiplas linhas de tratamento, ou seja, agir quando outras terapias falharam, o que costuma gerar custos elevados e prognósticos piores.
No Brasil, há esforço de pesquisadores para “nacionalizar” a produção da CAR-T e, assim, reduzir o custo para algo como “até 10 vezes menos” segundo estimativas iniciais.
Entretanto — e esse é o cerne investigativo —, “promissor” não significa “resolvido”:
A viabilidade operacional de escala ainda é incerta. Produção de células modificadas exige infraestrutura de alto nível, salas limpas, logística internacional ou adaptação local.
A generalização para tumores sólidos, que representam a maior parte dos novos diagnósticos, ainda enfrenta obstáculos. Logo, o benefício ainda é limitado a nichos.
Mesmo com custo unitário alto, há a questão de quanto benefício real (em qualidade e duração de vida) será entregue — e para quantos pacientes isso compensa. O “pay-for-performance” (pagamento por resultado) é citado como alternativa de adoção.
No contexto público (SUS), onde recursos são finitos, há um dilema ético: investir muito em poucos com tecnologia de ponta ou distribuir recursos para muitos com terapias mais estabelecidas?
Implica-se aqui algo relevante para a vida das pessoas:
Se a terapêutica CAR-T atingir maturidade operacional e de custo, poderá transformar o que hoje é “última linha” em “linha avançada”, fazendo com que pacientes com poucas opções ganhem tempo (ou até cura) com menor acúmulo de sofrimento e efeitos adversos.
Também pode liberar recursos para o sistema de saúde — se tratar mais eficazmente agora significa gastar menos em recaídas, complicações, internações prolongadas. Um “investimento alto agora” vira “economia futura”.
E o “e daí?” que todo leitor exige:
Para você, como cidadão e contribuinte, isso significa que o discurso “tecnologia cara = acesso negado” pode estar mudando — mas a chave será a tragetoria entre custo elevado e custo controlado, e não somente o preço bruto.
Para o sistema de saúde brasileiro, será um teste de governança: se conseguir garantir produção nacional, regulação eficiente, modelos de remuneração por resultado e ampliar o acesso, poderá colocar o Brasil entre os pioneiros. Se falhar, será um poderoso lembrete de que avanços apenas tecnológicos não bastam sem infraestrutura, financiamento e regulação.
Por fim: estamos diante de um momento que pode marcar a virada da oncologia — de “administrar o câncer” para “controlar o câncer como doença crônica ou até resolvê-lo em alguns casos”. Mas também pode se tornar uma ilustração dolorosa da promessa frustrada se os gargalos persistirem.
A pergunta que fica: quanto tempo será necessário para que o custo de R$ 3 milhões se torne “tratável para o Estado e acessível ao cidadão”? E, mais ainda: quem ficará de fora enquanto isso?

