Terapia de R$3 milhões pode ser mais econômica e eficiente contra o câncer

Se um único tratamento custa R$ 3 milhões, como pode ainda ser visto como “eficiente e econômica”? Essa aparente contradição reside no cerne da nova geração de terapias contra o câncer — especialmente a tecnologia conhecida como Terapia CAR‑T. Estudos no Brasil estimam que essa terapia, aplicada com células modificadas do próprio paciente, pode levar a ganhos clínicos relevantes e, a longo prazo, economia para o sistema de saúde.

Mas o “como” e o “e daí?” por trás desse argumento merecem ser examinados com cuidado.

Aqui vai o que se sabe — e o que ainda permanece em aberto:

  1. A terapia CAR-T parte de uma lógica radicalmente diferente da quimioterapia ou radioterapia convencionais: extrai-se uma subpopulação de linfócitos T do paciente, modifica-se geneticamente para reconhecer marcadores tumorais específicos e reinfunde-se para que ataquem as células neoplásicas.

  2. Hoje, esse tipo de tratamento já está aprovado em alguns tipos de câncer hematológico (leucemias, linfomas), mas não (ou ainda pouco) em tumores sólidos — a barreira do ambiente tumoral hostil e da “evasão imunológica” permanece.

  3. O custo é astronômico. Conforme reportagem recente, no Brasil este tipo de terapia pode custar “entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões” por paciente se aplicado com tecnologia importada ou dependente de cadeia internacional.

  4. E o argumento de eficiência? Está na combinação de dois fatores:

    • Menos tempo de tratamento intensivo, menos internações prolongadas, menos efeito colateral extremo. Por exemplo, um estudo do Instituto Butantan sugere que o câncer consome cerca de R$ 3 bilhões por ano no Sistema Único de Saúde (SUS) e que, se a produção nacional de CAR-T for viabilizada, o custo por paciente poderia despencar.

    • A possibilidade de “reduzir o lote” de pacientes que já passaram por múltiplas linhas de tratamento, ou seja, agir quando outras terapias falharam, o que costuma gerar custos elevados e prognósticos piores.

  5. No Brasil, há esforço de pesquisadores para “nacionalizar” a produção da CAR-T e, assim, reduzir o custo para algo como “até 10 vezes menos” segundo estimativas iniciais.

Entretanto — e esse é o cerne investigativo —, “promissor” não significa “resolvido”:

  • A viabilidade operacional de escala ainda é incerta. Produção de células modificadas exige infraestrutura de alto nível, salas limpas, logística internacional ou adaptação local.

  • A generalização para tumores sólidos, que representam a maior parte dos novos diagnósticos, ainda enfrenta obstáculos. Logo, o benefício ainda é limitado a nichos.

  • Mesmo com custo unitário alto, há a questão de quanto benefício real (em qualidade e duração de vida) será entregue — e para quantos pacientes isso compensa. O “pay-for-performance” (pagamento por resultado) é citado como alternativa de adoção.

  • No contexto público (SUS), onde recursos são finitos, há um dilema ético: investir muito em poucos com tecnologia de ponta ou distribuir recursos para muitos com terapias mais estabelecidas?

Implica-se aqui algo relevante para a vida das pessoas:

Se a terapêutica CAR-T atingir maturidade operacional e de custo, poderá transformar o que hoje é “última linha” em “linha avançada”, fazendo com que pacientes com poucas opções ganhem tempo (ou até cura) com menor acúmulo de sofrimento e efeitos adversos.

Também pode liberar recursos para o sistema de saúde — se tratar mais eficazmente agora significa gastar menos em recaídas, complicações, internações prolongadas. Um “investimento alto agora” vira “economia futura”.

E o “e daí?” que todo leitor exige:

Para você, como cidadão e contribuinte, isso significa que o discurso “tecnologia cara = acesso negado” pode estar mudando — mas a chave será a tragetoria entre custo elevado e custo controlado, e não somente o preço bruto.

Para o sistema de saúde brasileiro, será um teste de governança: se conseguir garantir produção nacional, regulação eficiente, modelos de remuneração por resultado e ampliar o acesso, poderá colocar o Brasil entre os pioneiros. Se falhar, será um poderoso lembrete de que avanços apenas tecnológicos não bastam sem infraestrutura, financiamento e regulação.

Por fim: estamos diante de um momento que pode marcar a virada da oncologia — de “administrar o câncer” para “controlar o câncer como doença crônica ou até resolvê-lo em alguns casos”. Mas também pode se tornar uma ilustração dolorosa da promessa frustrada se os gargalos persistirem.

A pergunta que fica: quanto tempo será necessário para que o custo de R$ 3 milhões se torne “tratável para o Estado e acessível ao cidadão”? E, mais ainda: quem ficará de fora enquanto isso?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Declaração de advogado ligado a Trump sobre tribunais brasileiros gera repercussão internacional

Virgínia rebate boatos de que estaria com Vini Jr por interesse: “Ele me trata como uma rainha”