O que realmente muda quando um governador de peso profere a palavra “tirania” contra um magistrado do Supremo?
A cena ocorreu na Avenida Paulista, em 7 de setembro, durante ato público em que Tarcísio de Freitas afirmou que “ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Moraes”.
No mesmo palco, o governador foi além do adjetivo e pediu medidas simbólicas, como a devolução do passaporte do pastor Silas Malafaia, convertendo ressentimento em espetáculo público.
Não confunda isso com um ataque isolado: é, antes, uma peça de comunicação calibrada para um público específico — um sinal de identidade mais do que uma proposição legal.
A escolha da Paulista não é ornamental; é auditório e vitrine. Fala-se para a rua e para as câmeras, simultaneamente desenhando um eleitorado e um repertório discursivo.
Ao invocar “tirania”, Tarcísio tensiona fronteiras institucionais e morais: acusar um juiz de ditadura é deslocar o debate do direito para a narrativa de vitimização.
Há outro movimento embutido nessa retórica: a defesa explícita da possibilidade de Bolsonaro concorrer “Deixa Bolsonaro ir pra urna” e a reafirmação de laços com o bolsonarismo.
A menção à anistia e o discurso sobre fatos históricos mostram que não se trata apenas de antipatia pessoal, mas de tentativa de reescrever regras de jogo para 2026.
A reação do próprio Judiciário foi imediata e previsível; ministros reagiram classificando a fala como despropositada e lembrando a diferença entre críticas e comparações com regimes de exceção.
Essa troca expõe um dilema prático: mobilização política gera ruído institucional, e ruído institucional pode boicotar governabilidade — um foguete que explode na própria mão.
Para analistas próximos ao centro-direita, a movimentação de Tarcísio é calculada: buscar o abraço do núcleo conservador do bolsonarismo enquanto permanece governador. É um movimento de posicionamento para 2026.
Política, aqui, funciona como contabilidade de sinais; cada palavra tem valor de mercado. “Tirano” não é só crítica: é ativo que se negocia.
Mas todo ativo tem passivo. A escalada verbal pode isolar aliados moderados, ativar retaliações institucionais e intensificar polarização eleitoral, com custos tangíveis para gestão pública.
No terreno simbólico, a comparação com ditaduras corrói a linguagem do debate público e trivializa traumas; no terreno prático, inaugura microssabotagens administrativas e jurídicas.
O desafio para a oposição ao Judiciário não é vencer um embate retórico; é transformar indignação em propostas normativas compatíveis com o Estado de direito.
Quem ganha com esse deslocamento: radicalizados que procuram sinais claros; quem perde: a governabilidade e a estabilidade institucional que sustentam políticas públicas.
Se há algo novo, é a convergência de espetáculo, estratégia eleitoral e frustração institucional num mesmo ato — um híbrido que a política brasileira vem refinando.
A pergunta fundamental não é se a fala foi dura; é se ela é eficaz. Políticas reais exigem coalizões, não apenas bravatas em palanques.
No fim, o impacto prático dependerá de dois vetores: a resposta institucional do Judiciário e a capacidade do centro político de monetizar ou neutralizar o gesto.
Fica uma última inquietação: em um sistema cujo equilíbrio depende de limites tácitos, qual o custo de romper mais um deles?
E, para o leitor, a questão que permanece depois do microfone calar: essas palavras reconfiguram só quem já estava alinhado — ou mudam o mapa político do país?

