Um prédio em chamas é sempre imagem forte.
Quando o edifício é o equivalente ao Supremo Tribunal de um país, o simbolismo é inevitável.
O incêndio no STF do Nepal, após tentativas de impor restrições ao acesso à internet, vai muito além da destruição material.
Expõe uma tensão central do século XXI: até onde governos podem ir para controlar o fluxo digital de informações?
O episódio, embora localizado, ecoa uma disputa global.
De Pequim a Washington, de Brasília a Katmandu, a rede mundial se tornou arena de poder político.
O governo nepalês justificava as medidas como proteção contra “conteúdos nocivos”.
Mas críticos viram nelas uma tentativa de censura, capaz de sufocar críticas, mobilizações e vozes dissidentes.
É um dilema recorrente.
Toda justificativa de restrição vem embalada em termos de segurança ou moralidade.
Mas o risco real é a erosão da liberdade de expressão.
O ataque físico ao tribunal, no entanto, não resolve nada.
Transforma um embate político e jurídico em ato de violência.
E, paradoxalmente, enfraquece a legitimidade da própria luta contra a censura.
O que está em jogo, no fundo, é a definição de soberania digital.
Quem controla o que circula na internet: governos, empresas de tecnologia ou os próprios cidadãos?
A resposta varia conforme a geopolítica.
Enquanto democracias buscam regulação equilibrada, regimes autoritários optam pelo bloqueio massivo.
O Nepal, jovem democracia ainda em construção, encontra-se no meio desse labirinto.
Oscila entre a pressão por estabilidade e o risco de minar direitos básicos.
O incêndio, nesse contexto, é sintoma.
Revela que o debate sobre limites da internet não está restrito a fóruns acadêmicos ou gabinetes políticos.
Ele já mobiliza emoções, multidões e, em casos extremos, violência.
A tragédia também mostra como a confiança institucional é frágil.
Quando tribunais perdem legitimidade, a rua se torna palco de protesto — nem sempre pacífico.
O desafio do Nepal será duplo: reconstruir fisicamente sua Suprema Corte e, ao mesmo tempo, reconstruir a confiança da população.
E a pergunta que persiste, observada de fora, é se o país conseguirá equilibrar dois valores essenciais e aparentemente opostos: liberdade e controle.
O incêndio pode ser interpretado como aviso.
Não apenas ao Nepal, mas ao mundo.
A batalha pela internet livre está longe de ser vencida — e pode incendiar mais do que tribunais.

