As três imagens que você forneceu criam um triângulo retórico sobre a segurança pública no Brasil, no qual a desesperança é o único ponto comum:
- O Apoio Cifrado (Pesquisa AtlasIntel): 87,6% dos moradores de favelas aprovam megaoperações letais.
- A Tese da Solução Radical (Bukele): A corrupção do Judiciário e do Estado impede o combate ao crime.
- A Demanda por Palco (Marcinho VP): O líder do crime exige o direito de falar no STF sobre a operação.
Essa triangulação revela que o Brasil se encontra em uma crise de legitimidade.
O primeiro ponto — a aprovação maciça da violência policial pelos moradores de comunidades — não é um endosso ao método, mas uma súplica cifrada por libertação. O apoio de 87,6% é o atestado de que a tirania do tráfico é tão insuportável que a intervenção violenta do Estado é vista como um mal menor. A população está escolhendo o risco do confronto estatal em detrimento da certeza da opressão criminosa.
O segundo ponto — a crítica de Bukele à corrupção do Judiciário — fornece a justificativa populista para a ineficácia do Estado. A tese de que “bandidos mandam no Estado” ressoa porque a lentidão da Justiça e o histórico de corrupção policial (como o resgate de presos) criam a percepção de que há um “pacto de não-guerra” em vigor. Bukele, com seu discurso simplista, transforma a complexidade brasileira em uma questão de vontade moral e oferece um atalho para a solução: a limpeza radical do Judiciário.
O terceiro ponto — o recurso de Marcinho VP ao STF para dar uma entrevista — é a evidência do colapso institucional. O líder de uma facção exige que a mais alta corte do país arbitre seu direito a um palanque. Isso prova que o crime organizado entende de Direito e de mídia, usando a própria lentidão e o garantismo do sistema contra ele. A manobra visa humanizar a imagem da facção (conectando-se ao filho rapper Oruam) e desmoralizar o Estado.
A colisão dessas três narrativas é o Dicionário da Desesperança Nacional:
- Desespero do Cidadão: Acredita que a única forma de paz é a guerra.
- Desespero da Política: Aceita que o problema se resolve com discursos radicais sobre a corrupção de outros poderes.
- Desespero do Estado: Não consegue sequer silenciar o líder do crime, que usa o Judiciário como ferramenta de marketing.
A verdadeira tragédia é que a simples busca por ordem — representada pelo apoio à polícia — está sendo sequestrada por uma narrativa de que a solução está na quebra da lei (a tese de Bukele) ou no espetáculo midiático (a demanda de VP).
O Brasil precisa parar de buscar soluções em líderes estrangeiros ou em performances midiáticas do crime e começar a construir uma segurança que seja simultaneamente social, inteligente e íntegra, provando que o crime pode ser combatido sem a aprovação do caos.

