A discussão sobre políticas públicas voltadas ao aumento da taxa de natalidade voltou ao centro do debate na Rússia após autoridades e especialistas próximos ao governo avaliarem medidas não convencionais para estimular a formação de famílias e o nascimento de crianças no país. Entre as ideias em análise está a possibilidade de restringir o acesso à eletricidade e à internet durante a noite, como forma de incentivar que casais passem mais tempo juntos em casa.
O tema ganhou visibilidade depois que integrantes de grupos ligados ao Parlamento e a instituições de planejamento social passaram a defender que o uso excessivo de telas, redes sociais e entretenimento digital estaria reduzindo o tempo de convivência íntima entre adultos em idade reprodutiva. Segundo essa linha de raciocínio, a hiperconectividade seria um dos fatores que contribuem para a queda dos nascimentos.
A Rússia enfrenta há anos um declínio demográfico considerado preocupante pelo governo. Dados oficiais apontam que a população vem encolhendo, tanto por causa da baixa taxa de natalidade quanto pelo envelhecimento acelerado e pela migração de jovens para outros países. Esse cenário é visto como um risco para a economia, a segurança e a manutenção do sistema de previdência.
Diante desse quadro, autoridades russas vêm adotando políticas que combinam incentivos financeiros, benefícios sociais e campanhas de valorização da família tradicional. No entanto, parte do establishment político acredita que essas iniciativas ainda não foram suficientes para reverter a tendência de queda nos nascimentos.
A proposta de limitar eletricidade e internet durante a noite surge nesse contexto como uma alternativa controversa. Seus defensores argumentam que, ao reduzir o tempo gasto em smartphones, streaming e jogos online, os casais teriam mais oportunidades de interação direta, o que poderia favorecer o fortalecimento dos relacionamentos e, eventualmente, o aumento da natalidade.
Críticos, por outro lado, afirmam que a medida ignora fatores estruturais que pesam mais sobre a decisão de ter filhos, como renda, estabilidade no emprego, acesso à moradia e serviços de saúde. Para esses analistas, cortar energia ou conexão não resolveria inseguranças econômicas nem mudaria, por si só, o planejamento familiar.
Dentro do governo, o debate ainda está em fase preliminar. A ideia não foi formalizada como política pública, mas circula em relatórios, entrevistas e discussões internas sobre como enfrentar a crise demográfica de forma mais agressiva.
Especialistas em sociologia e demografia observam que políticas que tentam influenciar comportamentos privados por meio de restrições tecnológicas costumam gerar resistência social. Em sociedades urbanas e digitalizadas, a internet e a eletricidade são vistas como serviços essenciais, e qualquer limitação pode ser percebida como interferência excessiva do Estado.
Mesmo assim, parte dos formuladores de políticas insiste que o declínio da natalidade exige soluções fora do convencional. Para eles, o padrão de vida moderno, com excesso de estímulos digitais e menos interação presencial, estaria diretamente ligado à redução do número de filhos.
A discussão também envolve valores culturais. Setores mais conservadores do governo russo defendem que o fortalecimento da família tradicional deve ser uma prioridade nacional e que o Estado tem o direito de promover condições que favoreçam esse modelo de vida.
No campo econômico, empresários e especialistas em tecnologia alertam que qualquer restrição à internet ou à energia poderia gerar impactos negativos na produtividade, especialmente em um país que tenta expandir o trabalho remoto, a economia digital e os serviços online.
Além disso, organizações de direitos civis questionam a legalidade e a proporcionalidade de uma medida desse tipo, argumentando que ela poderia afetar liberdades individuais e direitos básicos dos cidadãos.
O histórico da Rússia em políticas demográficas mostra uma combinação de incentivos e apelos patrióticos. Nos últimos anos, o governo ampliou subsídios para famílias com filhos, ofereceu benefícios fiscais e reforçou campanhas que exaltam a maternidade e a paternidade.
Apesar disso, os resultados ainda são limitados. Jovens russos continuam adiando o casamento e a chegada dos filhos, citando custos elevados, instabilidade econômica e incertezas sobre o futuro como principais razões.
Nesse contexto, a proposta de restringir o uso noturno de tecnologia aparece mais como um símbolo de frustração do que como uma solução amplamente aceita. Ela reflete a dificuldade de encontrar políticas eficazes para mudar tendências demográficas em sociedades modernas.
Analistas políticos observam que o simples fato de a ideia estar sendo debatida já indica o grau de preocupação do governo com o tema. A demografia é vista como uma questão estratégica de longo prazo, com impacto direto no poder e na influência do país.
Internacionalmente, a discussão russa chama atenção por contrastar com políticas adotadas em outros países, que costumam focar em creches, licenças parentais e apoio financeiro direto às famílias.
Especialistas em políticas públicas ressaltam que experiências globais mostram que o aumento da natalidade depende mais de segurança econômica e de políticas sociais do que de restrições comportamentais.
Ainda assim, o debate continua ativo dentro da Rússia, e novas propostas devem surgir à medida que o governo busca alternativas para conter o declínio populacional.
Independentemente de a medida vir ou não a ser implementada, a controvérsia evidencia como a crise demográfica se tornou um dos temas centrais da agenda política russa.
A forma como o país decidirá enfrentar esse desafio nos próximos anos terá impacto não apenas sobre o número de habitantes, mas também sobre o modelo de sociedade que pretende construir.

