Rombo de R$ 60 bi no Master envolve contrato com empresa da esposa de Moraes

A crise envolvendo o Banco Master ganhou novo capítulo ao surgir uma suspeita que tem reverberado em Brasília: de acordo com as investigações, há um contrato entre o Master e o escritório de advocacia Barci de Moraes, onde atua Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. O fato acende discussões sobre governança, ética institucional e possíveis conflitos de interesse, embora ainda não haja comprovação de envolvimento direto do ministro.

Relatórios da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) indicam que o banco liderado por Daniel Vorcaro teria repassado carteiras de crédito fictícias ao Banco de Brasília (BRB), totalizando R$ 12,2 bilhões, segundo a apuração.  Esses créditos inexistentes teriam sido justificados por meio de documentos supostamente falsificados entregues ao Banco Central.

A descoberta levou à deflagração da Operação Compliance Zero, empreendida pela PF, que resultou na prisão preventiva de Vorcaro e no afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. Em reação, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master, citando uma grave crise de liquidez e violação grave das normas financeiras.

No centro das críticas está o contrato com o escritório Barci de Moraes, onde Viviane Barci trabalha. A relação entre as partes provocou questionamentos públicos, principalmente por se tratar da esposa de um ministro do STF, mas até agora não foram apresentados elementos que liguem Alexandre de Moraes diretamente às fraudes no Master.

O passivo identificado do Banco Master é alarmante. Segundo cálculos de especialistas, pode ultrapassar os R$ 56 bilhões, com estimativa de até R$ 60 bilhões em depósitos que eventualmente poderão ser acionados via Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Essa dimensão assinala um possível impacto sistêmico no sistema financeiro brasileiro.

Em sua nota de defesa, o Master afirmou não se responsabilizar integralmente pelos R$ 12,2 bilhões repassados ao BRB. Segundo o banco, a Tirreno Consultoria de Crédito, empresa envolvida na operação, seria a legítima originadora dos créditos — e não o Master —, responsabilizada pelas irregularidades encontradas nos documentos.

Ainda de acordo com a nota, a Tirreno teria sido criada por um ex-funcionário do Master, André Felipe de Oliveira Seixas Maia, e somente dois dias antes de assinar contrato com o banco aumentou seu capital social de R$ 100 para R$ 30 milhões.  As investigações indicam que assinaturas eletrônicas usadas nos documentos são de abril e maio de 2025, o que levanta suspeitas sobre a autenticidade e a cronologia dos registros.

O juiz responsável pela operação destacou uma hipótese central da PF: o Master teria inflado seu patrimônio artificialmente, associando-se à Tirreno para revender créditos fictícios ao BRB, como forma de cobrir um rombo bilionário em seu balanço.

A relação entre o Master e o escritório da família Moraes acende ainda outro debate: o de transparência. Embora não exista até o momento prova de que o ministro Alexandre de Moraes tenha influenciado ou se beneficiado das operações, o simples vínculo da instituição com sua esposa suscita questionamentos sobre governança e percepção pública.

Do ponto de vista institucional, especialistas alertam para o risco reputacional: uma ligação entre alta esfera do Judiciário e uma instituição alvo de escândalo financeiro fragiliza ainda mais a confiança no sistema. Alguns analistas assinalam que, mesmo sem ilicitude provada, o episódio exige investigação rigorosa para afastar dúvidas legítimas.

Além disso, a magnitude dos passivos disparou o alerta nas autoridades reguladoras. A liquidação do Master pelo Banco Central e a descoberta de fraudes com documentos falsos foram consideradas graves violações, capazes de comprometer a estabilidade de credores e a solidez do sistema bancário.

A possível ativação do FGC para saldar a titularidade dos depósitos representa um efeito colateral pesado para o sistema financeiro. Se confirmados os valores estimados, haverá grande pressão sobre o fundo e, indiretamente, sobre outras instituições para honrar esse compromisso.

Por sua vez, o MPF e a PF informaram que a investigação segue em curso, com quebras de sigilos, auditorias e busca por todos os envolvidos na operação estrutural do Master. O processo ainda poderá atingir executivos, sócios e intermediários do banco e da Tirreno.

No front político, o caso já motivou reações variadas. Para alguns observadores, é necessário blindar a investigação para que não haja interpretações políticas ou interferências institucionais — especialmente por envolver uma figura ligada ao Supremo Tribunal Federal.

Do ponto de vista jurídico, a situação estimula debates sobre a necessidade de reforçar mecanismos de compliance e controles internos nos bancos. A hipótese de carteiras fictícias vendidas a instituições públicas revela a fragilidade de estruturas de verificação de ativos.

Entre defensores da legalidade, há quem argumente que o contrato com o escritório Barci de Moraes pode ter sido legítimo, prestado serviços reais e não necessariamente implicar participação direta nas fraudes. No entanto, para os críticos, a coincidência dos valores e o momento do colapso do Master exigem esclarecimentos urgentes.

Outra linha de análise aponta para o papel do Banco Central, que veio a público após identificar a grave crise de liquidez no Master. Reguladores afirmaram ter constatado irregularidades, mas também admitiram que a supervisão poderia ter sido mais incisiva antes da situação atingir proporções tão elevadas.

Enquanto isso, investidores, depositantes e credores acompanham com apreensão o desdobrar dos fatos. A eventual responsabilização criminal ou civil dos gestores do Master pode significar recuperação parcial de ativos, mas muitas incertezas persistem.

O caso também pressiona o Legislativo: parlamentares reivindicam mais transparência sobre como contratos entre instituições financeiras e escritórios de advocacia ligados a figuras públicas são firmados, especialmente quando envolvem valores bilionários.

Para o público, a crise do Master expõe a complexidade das fraudes financeiras modernas, que podem combinar engenharia contábil sofisticada, operações fictícias e relações institucionais controversas. É um alerta para a importância da vigilância regulatória e do papel de entidades de controle.

De modo decisivo, será fundamental que as investigações sigam sem cerceamento e que as instituições envolvidas — públicas e privadas — sejam responsabilizadas de forma justa e rigorosa, sem sacrificar a presunção de inocência, mas sem ignorar os indícios de práticas graves.

Em síntese, o escândalo do Banco Master, com o suposto rombo de R$ 60 bilhões e o contrato com o escritório da esposa de um ministro do STF, revela um quadro altamente sensível para a estabilidade financeira, a confiança institucional e a ética no setor bancário. A evolução desse caso poderá definir rumos importantes para a regulação financeira no Brasil.

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