Revista é criticada por colocar Angélica e não a bióloga Tatiana Sampaio no centro da capa “mulheres superpoderosas”

A divulgação da nova edição da revista Forbes Brasil, que traz a prestigiada lista das “Mulheres Mais Poderosas do Brasil” em 2026, acendeu um debate acalorado nas redes sociais neste final de semana. O ponto central da discórdia não foi a ausência de nomes relevantes, mas sim a composição visual da capa. Internautas e especialistas em comunicação criticaram a escolha editorial de posicionar a apresentadora e empresária Angélica em destaque central, enquanto a cientista e bióloga Tatiana Sampaio, responsável por uma descoberta histórica na medicina regenerativa, aparece em uma posição considerada secundária.

A edição 138 da revista celebra 16 lideranças que, segundo a publicação, “redesenham o cenário nacional” em áreas que vão do agronegócio à tecnologia. Além de Angélica e Tatiana Sampaio, a capa é estampada por nomes como Monique Evelle (investidora e estrategista), Manzar Feres (diretora de negócios da Globo) e Ticiana Villas Boas (fundadora da 55 Design). No entanto, o contraste entre o brilho do entretenimento e o peso da ciência nacional gerou questionamentos sobre quais critérios definem o “poder” na hora de diagramar uma vitrine tão influente.

O “e daí?” sociológico dessa polêmica reside na visibilidade da ciência brasileira. Tatiana Sampaio ganhou projeção mundial em 2026 após sua pesquisa com a polilaminina receber autorização da Anvisa para testes clínicos em humanos. A molécula, desenvolvida na UFRJ ao longo de quase 30 anos, tem o potencial de reverter lesões medulares, uma das maiores fronteiras da medicina. Para muitos críticos, em um momento em que a ciência nacional busca reconhecimento e financiamento, colocar sua maior expoente atual “atrás” de uma figura do entretenimento reforça estereótipos de que a fama midiática ainda sobrepõe o impacto social e científico.

A Forbes Brasil defende que a lista é plural e que todas as mulheres selecionadas possuem trajetórias de sucesso incontestáveis em seus respectivos nichos. Angélica, por exemplo, é destacada não apenas por sua carreira na TV, mas por sua atuação como empresária no setor de bem-estar e sua influência em pautas sobre longevidade e saúde mental. O argumento da revista é de que a capa busca representar a diversidade do poder feminino, unindo diferentes perfis que inspiram a sociedade de formas distintas.

Nas redes sociais, o debate extrapolou a estética. No “X” (antigo Twitter) e no Instagram, usuários criaram montagens alternativas da capa, colocando Tatiana Sampaio e Monique Evelle em evidência. A discussão levantou o termo “cientista no centro”, com defensores da educação alegando que a mídia brasileira perde a oportunidade de criar novos ídolos para as gerações mais jovens ao priorizar rostos já conhecidos do grande público em detrimento de mentes que estão mudando o futuro da saúde global.

A própria Tatiana Sampaio, que recentemente recebeu a Comenda Jerônimo Monteiro no Espírito Santo, tem mantido uma postura discreta sobre a polêmica, focando na divulgação dos avanços da polilaminina. Em entrevistas recentes, ela ressaltou que seu desafio não é a representatividade, mas “conciliar a vida pessoal com o trabalho” e garantir que a ciência brasileira seja vista como uma solução viável para problemas globais. A cientista tornou-se uma espécie de heroína nacional em 2026, chegando a ter seu nome ventilado por internautas em campanhas simbólicas para o Prêmio Nobel.

Dentro do mercado publicitário, a escolha da Forbes é vista como uma decisão pragmática de vendas. Revistas de negócios ainda dependem do impacto visual nas bancas e aplicativos para atrair o leitor médio, e figuras como Angélica possuem um apelo comercial e um reconhecimento facial imediato que cientistas, por mais brilhantes que sejam, raramente atingem. No entanto, o custo dessa escolha parece ser um desgaste de imagem junto a um público mais jovem e politizado, que demanda uma hierarquia de valores mais alinhada ao impacto real das descobertas.

A lista de 2026 também traz outros nomes de peso que ficaram “escondidos” pela polêmica da capa, como Tania Zanella (presidente da OCB) e Priscyla Laham (presidente da Microsoft Brasil). O fato de o Brasil ter sete hospitais entre os melhores do mundo em 2026 e estar na vanguarda da biotecnologia nervosa com a polilaminina reforça que a “era das mulheres na ciência” é uma realidade factual, que agora pressiona a mídia tradicional a atualizar suas formas de representação.

Por fim, o caso da Forbes Brasil serve como um termômetro sobre como o conceito de “mulher poderosa” está sendo renegociado no país. Se antes o poder estava intrinsecamente ligado ao cargo executivo ou à fama, hoje ele parece estar cada vez mais vinculado à capacidade de transformar a vida das pessoas através do conhecimento. A capa da edição 138 será lembrada menos pelas 16 mulheres incríveis que selecionou e mais pela discussão necessária que provocou sobre o lugar que a ciência deve ocupar em nossa prateleira de valores.

A trajetória de Tatiana Sampaio e a descoberta da polilaminina continuam a ser o assunto mais lido nas seções de tecnologia e saúde, provando que, mesmo sem o centro da capa física, a ciência conquistou o centro das atenções do público. A lição para 2026 é clara: o prestígio acadêmico no Brasil nunca foi tão “pop” e a sociedade está cada vez menos disposta a aceitar que o brilho dos refletores ofusque o rigor dos laboratórios.

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