A crítica do relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Atos de 8 de Janeiro ao Presidente Lula, por ele ter “criminalizado a ação dos policiais”, toca em uma das fraturas mais sensíveis da segurança pública: o conflito entre o Comando Político e a Ação Tática.
O relator argumenta que a fala de Lula, ao questionar o papel da polícia durante os atos, desmoraliza a corporação e dificulta o trabalho da investigação que busca coibir abusos.
Essa crítica não é apenas técnica; é profundamente política. Ela visa proteger a imagem da corporação policial em um momento de intenso escrutínio e, ao mesmo tempo, pressionar o governo a alinhar seu discurso com as Forças de Segurança.
O cerne do debate é o limite da crítica presidencial. Lula, ao levantar suspeitas sobre a conduta policial nos atos, cumpriu um papel de questionamento da chefia de Estado, mas, na visão do relator, minou a confiança na instituição.
A polarização se manifesta aqui:
- Visão do Relator: Prioriza a defesa institucional da polícia e a presunção de legalidade da ação.
- Visão de Lula (implícita): Prioriza a investigação da omissão e da conivência em um evento que visava a ruptura democrática.
A CPMI, ao investigar os atos, tem como um de seus objetivos determinar se houve falha, conivência ou sabotagem de agentes de segurança. A fala de Lula, para o relator, é um juízo sumário que atrapalha essa neutralidade.
A “infelicidade” na fala presidencial, como classifica o relator, reside em generalizar a culpa. Ao invés de mirar em agentes específicos, o discurso pode ser interpretado como um ataque à corporação como um todo.
Isso é um problema para a governabilidade: o presidente precisa da lealdade operacional das Forças de Segurança. Criminalizar a ação a priori pode gerar resistência e atrito com o aparato estatal.
O relator, ao criticar o presidente publicamente, usa o palco da CPI para reforçar o papel de defensor das instituições, capitalizando politicamente sobre a insatisfação de parte do segmento policial com o governo.
A solução exige que o discurso presidencial seja mais preciso: combater os desvios e as omissões, sem minar a legitimidade do trabalho da imensa maioria dos policiais que agem dentro da lei.
A política, mais uma vez, usa a segurança como campo de batalha. O debate não é sobre o 8 de Janeiro, mas sobre quem tem a autoridade moral para julgar a ação policial no Brasil.

