Ratinho defende o SBT após inúmeros ataques e afirma que a emissora não tem um lado: “O SBT não tem lado, e nunca teve”

Neutralidade é uma palavra confortável. Soa ética, madura, quase virtuosa. Mas o que ela significa quando invocada em meio a uma tempestade de ataques e disputas simbólicas?

Ao sair em defesa do SBT, Ratinho não falou apenas como apresentador veterano. Falou como peça central de uma engrenagem que conhece profundamente o poder — e os limites — da televisão aberta no Brasil.

Segundo ele, a emissora não toma partido. Sempre foi isenta. A afirmação parece simples, mas carrega uma complexidade que merece ser destrinchada.

Em tempos de polarização extrema, declarar neutralidade tornou-se, paradoxalmente, um ato político. Não escolher lados é, muitas vezes, uma escolha em si.

O SBT construiu sua identidade apostando no entretenimento popular, na informalidade e em uma relação direta com o público. Essa fórmula sempre evitou o discurso editorial explícito, ao contrário de concorrentes historicamente mais engajadas.

Mas isenção editorial não significa ausência de impacto político. Programas, quadros, piadas e silêncios também moldam percepções.

Ratinho sabe disso. Sua carreira é prova de como o “jeito simples” pode carregar mensagens poderosas, mesmo quando disfarçadas de espontaneidade.

Ao defender o canal, ele parece reagir menos às críticas pontuais e mais a uma tentativa de enquadrar o SBT em um campo ideológico específico. Algo que a emissora, por estratégia ou convicção, sempre evitou.

A pergunta central não é se o SBT é neutro. É se a neutralidade ainda é possível em um ambiente onde tudo é interpretado, recortado e amplificado em segundos.

Redes sociais não toleram zonas cinzentas. Exigem posicionamentos claros, frases curtas e culpados bem definidos. A televisão, com seus tempos longos e ambiguidades, virou alvo fácil.

Ao se colocar como defensor da isenção, Ratinho também defende um modelo antigo de mídia: aquele em que o público não espera alinhamento moral constante, mas entretenimento e familiaridade.

Há quem veja nisso omissão. Há quem enxergue coerência. A diferença entre uma coisa e outra depende mais do olhar de quem critica do que da prática em si.

O ataque ao SBT revela menos sobre a emissora e mais sobre o momento atual, em que neutralidade virou sinônimo de suspeita.

No fundo, Ratinho não está apenas defendendo um canal. Está defendendo o direito de existir fora da lógica do “ou você é contra ou é a favor”.

Resta saber se esse espaço ainda é permitido — ou se a neutralidade, hoje, é apenas mais um personagem em extinção no espetáculo público brasileiro.

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