A declaração de Ramón Díaz, técnico do Internacional, de que “O futebol é para homens, não é para meninas, é para homens”, após reclamar da anulação de um gol pelo VAR, é a prova cabal de que a mentalidade machista é o adversário mais resiliente do futebol moderno.
A frase, proferida em um contexto de frustração esportiva, usa o termo “meninas” como sinônimo pejorativo de fragilidade ou covardia, estabelecendo uma ligação tóxica entre masculinidade e coragem no esporte.
O Reforço do Estereótipo Tóxico
O cerne da polêmica não é a crítica à arbitragem, mas a linguagem escolhida. Ao apelar para o jargão de que o futebol é um “esporte de homens”, Díaz busca invalidar a decisão arbitral ao associá-la àquilo que ele considera a fraqueza feminina.
Essa retórica é um mecanismo de defesa ancestral no esporte, que tenta transformar a dificuldade técnica ou a frustração em uma crise de virilidade. Ela reforça o estereótipo de que o futebol feminino é menos “sério” ou “aguerrido” e que as mulheres, em geral, não têm a têmpera necessária para a alta pressão competitiva.
A Reincidência e a Falha na Retratação
O caso ganha gravidade por ser uma reincidência. Ramón Díaz já havia se envolvido em polêmica semelhante em 2024, quando questionou a capacidade da árbitra Daiane Muniz de comandar o VAR, sugerindo que “o futebol é diferente” e que uma mulher não deveria tomar decisões “tão importantes”.
A retratação na época (“Se interpretou algo mal… peço desculpa, mas não é minha intenção”) não foi convincente e, agora, é completamente anulada pela nova declaração.
A repetição da ofensa indica que o problema não é a má interpretação da mídia, mas a convicção pessoal do treinador. A hipocrisia se manifesta na tentativa de separar o técnico do machismo, quando suas palavras o ligam diretamente.
O Silêncio Cúmplice do Clube
O Internacional, como instituição, tem a responsabilidade ética de se posicionar de forma firme contra declarações que ferem a inclusão e a diversidade.
O futebol, hoje, é um esporte jogado e acompanhado por milhões de mulheres. A omissão ou a condenação protocolar do clube é uma forma de silêncio cúmplice que permite que a mentalidade retrógrada continue a prosperar sob o manto da “paixão esportiva”.
A verdadeira coragem que se exige do futebol moderno não é a que se mede em divididas em campo, mas a de romper com o patriarcado que historicamente o manteve exclusivo. A paixão pelo futebol é universal; o gênero da fraqueza é uma construção social que não cabe mais no esporte de alto nível.

