A nota oficial da corporação começa com pesar: solidariedade às famílias, dor compartilhada, promessa de justiça.
Mas o trecho seguinte revela o verdadeiro tom do Estado diante da tragédia — “A resposta está vindo, e à altura”.
Essa frase, cuidadosamente redigida, diz mais do que parece.
Ela transforma luto em justificativa, e justiça em retaliação.
A megaoperação que já contabiliza 64 mortos e 81 presos é apresentada como reação legítima aos ataques contra policiais.
Mas o saldo humano — dezenas de corpos levados por moradores a uma praça na manhã seguinte — levanta uma pergunta incômoda: o que significa uma “resposta à altura” num país em que a altura da resposta costuma ser medida em cadáveres?
O discurso institucional da dor se mistura à retórica da força.
E o resultado é um Estado que, enquanto lamenta, também ameaça.
Os policiais mortos, sem dúvida, merecem respeito e investigação rigorosa.
Mas o mesmo deve valer para cada uma das vidas ceifadas sob o pretexto de “combate ao crime”.
A operação, que entrou para a história como uma das mais letais do Rio de Janeiro, ilustra o ciclo que se repete há décadas: o ataque, a reação, o enterro coletivo e o silêncio posterior.
Nada muda — apenas o número de mortos.
Quando o Estado assume o papel de vingador, abdica de ser mediador.
A fronteira entre justiça e violência se dissolve, e o poder público passa a disputar com o crime o monopólio da brutalidade.
A retórica da guerra é sedutora.
Ela oferece respostas rápidas, alimenta a sede por punição e conforta os que acreditam que “bandido bom é bandido morto”.
Mas também mascara o fracasso das políticas de segurança, da inteligência policial e da prevenção social.
“Responder à altura” pode soar como coragem — mas, na prática, significa admitir que o Estado reage com o mesmo ímpeto destrutivo que condena.
E quando a lei se equipara à vingança, perde sua legitimidade.
As cenas da manhã seguinte — corpos carregados por moradores, improvisados sobre a praça — desmontam qualquer discurso de vitória.
A população não se sente protegida, sente-se sitiada.
A nota da corporação tenta equilibrar humanidade e poder, compaixão e firmeza.
Mas o que chega às favelas é apenas o eco das balas e o peso das ausências.
O Rio de Janeiro não precisa de respostas “à altura”.
Precisa de respostas humanas, legais e eficazes — porque cada operação que se transforma em massacre é um lembrete de que a violência, quando institucionalizada, deixa de combater o crime e passa a competir com ele.
E talvez a verdadeira coragem, neste momento, não esteja em atacar de volta, mas em interromper o ciclo que já devorou gerações inteiras.

