A adoção de Pretinha não é apenas uma boa notícia. É um ponto de inflexão em uma história marcada por violência, indignação pública e vigilância social permanente.
Pretinha ficou conhecida não por escolha, mas por proximidade. Era a melhor amiga de Orelha, o cão brutalmente agredido e morto em Florianópolis, caso que mobilizou redes, imprensa e autoridades.
Desde então, cada movimento ao redor dos animais envolvidos passou a ser observado com lupa. Não se trata mais apenas de cães. Trata-se de símbolos.
A confirmação da adoção foi feita pela médica veterinária Fernanda Oliveira e pelo empresário Bruno Ducatti. Um anúncio técnico, quase discreto, para um caso que jamais foi pequeno.
Bruno, novo tutor, ainda não conheceu Pretinha pessoalmente. A prioridade, segundo ele, é a recuperação da cadela, cujo estado de saúde segue delicado e instável.
Cinco veterinários atuam diretamente no tratamento. Os custos já ultrapassam R$ 17 mil, integralmente arcados pela Petlove, plano de saúde animal que assumiu a linha de frente financeira do caso.
Aqui, surge a primeira pergunta incômoda: quando o cuidado depende de comoção, quem fica desassistido quando o holofote se apaga?
Pretinha só existe hoje como “caso” porque o nome Orelha gerou revolta coletiva. Milhares de outros animais feridos jamais terão esse privilégio narrativo.
Bruno Ducatti, empresário da área de tecnologia, mora em São Paulo e mantém apartamento em Florianópolis. Já convive com um cachorro e um gato. O perfil parece, à primeira vista, irrepreensível.
Mas, neste caso, até o perfil vira objeto de análise pública. Não basta adotar. É preciso provar, o tempo todo, que se merece.
A adoção de Pretinha carrega um peso incomum: ela não está apenas indo para um lar, está sendo retirada de um campo de disputa moral.
O processo de recuperação não é só físico. É simbólico. Pretinha carrega, no corpo fragilizado, a memória de uma violência que a sociedade decidiu não esquecer.
E isso tem um efeito colateral perigoso: a personalização excessiva do cuidado. Quando um animal vira emblema, ele deixa de ser apenas animal.
O mérito do novo tutor não está em visibilidade, mas na disposição de assumir um compromisso silencioso, longo e sem aplausos futuros.
Porque o verdadeiro teste começa quando não há mais manchete, nem stories, nem atualizações médicas compartilhadas.
A adoção responsável não é o final feliz. É o início de uma rotina exigente, cara, emocionalmente desgastante e pouco glamourosa.
Pretinha não foi “salva”. Ela foi acolhida. A diferença entre os dois verbos é enorme — e costuma separar boas intenções de responsabilidades reais.
O caso também expõe o papel crescente de empresas privadas no socorro animal, ocupando espaços onde políticas públicas seguem frágeis ou inexistentes.
No fundo, Pretinha nos obriga a encarar uma verdade desconfortável: nossa empatia ainda depende demais do choque, da tragédia e da viralização.
Que ela encontre estabilidade, cuidado e anonimato. Porque, depois de tudo, talvez o maior presente que Pretinha possa receber seja deixar de ser notícia.

