O debate sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa o fim da escala de trabalho 6×1 ganhou um novo e polêmico capítulo nesta quinta-feira (26). O deputado federal Marcos Pereira (SP), presidente nacional do Republicanos e vice-presidente da Câmara, manifestou-se contrariamente à mudança na jornada de trabalho, utilizando um argumento que gerou forte repercussão nas redes sociais e nos bastidores do Congresso. Segundo o parlamentar, a redução do tempo de serviço para aumentar o descanso semanal poderia ser prejudicial à sociedade, afirmando que “ócio demais faz mal”.
A declaração de Pereira ocorreu em um contexto de crescente pressão popular e parlamentar para a revisão da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), buscando a implementação da semana de quatro ou cinco dias úteis. Para o líder do Republicanos, a manutenção da escala atual é fundamental para a produtividade econômica do país e para a saúde mental e ocupacional dos trabalhadores. O parlamentar defende que o trabalho dignifica o homem e que uma alteração drástica na carga horária poderia desestruturar o setor de serviços e o comércio, pilares da economia brasileira.
O posicionamento do deputado reflete a resistência de setores mais conservadores e ligados ao empresariado dentro do Legislativo. Pereira argumenta que o Brasil ainda não possui maturidade econômica para abdicar de um dia de produção sem que isso resulte em inflação ou perda de competitividade internacional. Além disso, ele sugere que o excesso de tempo livre, sem uma rede de suporte cultural e educacional adequada, poderia levar a comportamentos ociosos que não contribuem para o desenvolvimento do cidadão.
A fala “ócio demais faz mal” foi rapidamente rebatida por movimentos em defesa dos trabalhadores, como o VAT (Vida Além do Trabalho), liderado pelo vereador eleito Rick Azevedo. Os defensores da PEC argumentam que a escala 6×1 é exaustiva, impede o convívio familiar e contribui para o aumento de casos de burnout e depressão. Para esses grupos, o descanso não é “ócio”, mas um direito fundamental à saúde e à dignidade humana, permitindo que o trabalhador se recupere fisicamente para exercer suas funções com mais eficiência.
O “e daí?” político dessa declaração reside no peso que Marcos Pereira exerce na sucessão da presidência da Câmara. Como líder de um partido de centro-direita com 44 deputados, sua opinião sinaliza que a PEC do fim da escala 6×1 enfrentará barreiras significativas para avançar nas comissões da Casa. O Republicanos costuma votar em bloco em pautas econômicas, e a tendência é que o partido tente barrar a proposta ou desidratá-la através de substitutivos que mantenham a flexibilidade das jornadas.
Dentro do Congresso, a base do governo Lula encontra-se dividida sobre o tema. Enquanto a ala ligada aos sindicatos apoia entusiastamente a redução da jornada, o núcleo econômico do governo teme os impactos no custo Brasil e na geração de empregos formais. A fala de Pereira acaba por dar voz a um sentimento de cautela que permeia o empresariado, que vê na escala 6×1 uma necessidade logística para o funcionamento de supermercados, farmácias e postos de combustíveis que operam ininterruptamente.
O impacto eleitoral de tais declarações também é monitorado por estrategistas. Em um ano de forte polarização, o tema do trabalho toca diretamente na rotina da maioria da população. Marcos Pereira, ao se posicionar de forma tão contundente, busca consolidar sua imagem como um defensor do rigor produtivo e da ordem econômica, apostando em um eleitorado que valoriza o esforço laboral acima das demandas por mais tempo de lazer ou descanso.
Especialistas em Direito do Trabalho apontam que a discussão sobre o “ócio” é, na verdade, uma discussão sobre produtividade horária. Países desenvolvidos que reduziram a jornada observaram que trabalhadores descansados rendem mais em menos tempo. No entanto, Pereira mantém o ceticismo, acreditando que a realidade brasileira exige uma presença maior do trabalhador no posto de serviço para compensar lacunas de infraestrutura e tecnologia que ainda afetam a indústria nacional.
A repercussão negativa da fala nas plataformas digitais foi imediata, com críticos ressaltando que parlamentares possuem jornadas flexíveis e recessos prolongados, o que tornaria a afirmação “ócio demais faz mal” hipócrita aos olhos do trabalhador comum. Por outro lado, apoiadores do deputado defendem que ele está sendo “realista” e evitando uma “medida populista” que poderia quebrar pequenos comércios que não teriam margem para contratar novos funcionários para cobrir os dias de folga extra.
A PEC continua coletando assinaturas e precisa de 171 apoios para começar a tramitar oficialmente. O posicionamento de um vice-presidente da Câmara contra a medida funciona como um balde de água fria nos entusiastas do projeto, que esperavam uma tramitação célere diante da mobilização nas ruas. A discussão agora deve se deslocar para audiências públicas, onde especialistas em saúde do trabalho e representantes das confederações nacionais da indústria e do comércio serão ouvidos.
A trajetória deste debate em 2026 será decisiva para definir o futuro das relações trabalhistas no Brasil. O conceito de “ócio” defendido por Pereira choca-se com o conceito moderno de “bem-estar” e equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Enquanto a ciência aponta para a necessidade de repouso para a longevidade, a política de Brasília foca nos gráficos de PIB e nos custos operacionais da manutenção do status quo laboral.
Por fim, a declaração de Marcos Pereira serve para traçar as linhas de batalha legislativa que virão. O fim da escala 6×1 não será decidido apenas por clamor popular, mas por uma queda de braço de influências entre quem produz e quem trabalha. O “ócio”, termo tão carregado de subjetividade, tornou-se a nova palavra de ordem em um Congresso que parece cada vez mais distante das dores de quem passa seis dias por semana sob o comando de um relógio de ponto.

