O que provoca mais indignação — um político que evita o serviço público ou aquele que ousa usá-lo?
O prefeito de Ourinhos (SP), Guilherme Gonçalves (Podemos), viralizou nas redes ao aparecer em uma UPA aguardando atendimento pelo SUS, dizendo que “político tem que usar o serviço que ele defende”.
A cena, simples em sua execução, tornou-se exemplar em contraste simbólico.
Políticos em hospitais públicos são raridade; a maioria vê o SUS como opção apenas para quem não pode pagar plano privado.
Gonçalves disse que seus filhos estudam em escola pública e que sua família “usa o SUS”.
A implicação é clara: não basta discursar sobre políticas públicas — é preciso viver sob elas.
Quem observou a foto viu mais do que um prefeito na fila.
Viu a dissonância entre o discurso de serviço público e as práticas repletas de privilégios que costumam afastar o político comum da realidade cotidiana.
Essa atitude viraliza porque toca uma ferida histórica: a desconfiança de que “eles” não compartilham dos mesmos riscos que “nós”.
Se o político desafia esse pacto implícito, ele rompe também uma barreira simbólica.
Mas há risco nisso: performar vulnerabilidade pública pode virar espetáculo de marketing.
A atenção pode isolar o gesto de sua efetividade — o político vira “aquele que esteve no SUS”, e não “aquele que o transformou”.
A viralização demonstra o poder das redes na modulação da legitimidade.
O império digital permite que atos singulares se tornem referência social instantânea.
A política brasileira tem uma coleção de gestos simbólicos que moldam percepção.
Esse ato é mais próximo de uma profecia: “façamos, pois, políticos que vivam o público como todos vivemos”.
Há precedentes: deputados que usam ônibus público, ministros que pegam fila no INSS — gestos pontuais que tentam abalar muros de cinismo.
Gonçalves escreveu seu gesto no livro silencioso da credibilidade pública.
Mas resta a pergunta que todo viral deixa imposta: o que ele fará além da viralização?
Atenderá as UPAs com estrutura, recursos humanos, gestão eficiente — não só posar para fotos?
Se o prefeito atravessou a linha entre privilégio e prova simbólica, o desafio é sustentar esse discurso em política concreta.
Se não, tudo se desfaz na memória curta das redes.
Enquanto isso, o Brasil observa: em uma sociedade onde hospitais públicos são palco de sofrimento, ver um homem de poder dividir a dor de espera causa estranhamento — e fascínio.
No fundo, o político que decreta que “quem defende deve usar” propõe menos um espetáculo e mais uma contrarrevolução ética.
Mas esta contrarrevolução precisa resistir além dos cliques — precisa inscrever-se nas estruturas do estado que ele reivindica servir.
E a última lição talvez seja essa: privilégio é invisível até que alguém o abdique — e quando isso acontece publicamente, pode se tornar recado soberano.

