Prefeito proíbe dia do cabelo Maluco em escolas do Mato Grosso do Sul: “Não agrega em nada”

O que há de tão perigoso em um cabelo colorido, cheio de glitter e elásticos? A resposta parece óbvia — nada. Ainda assim, o prefeito de Antônio João (MS), Marcelo Pé (PSDB), decidiu proibir a tradicional brincadeira do “cabelo maluco” nas escolas municipais. A justificativa: a atividade “não agrega em nada” à educação.

A decisão, verbal por enquanto, será oficializada em decreto. E, mais do que um simples veto, ela escancara uma visão antiquada sobre o que significa educar.

Ao classificar a brincadeira como perda de tempo, o prefeito ignora o papel fundamental do lúdico no aprendizado infantil. Crianças aprendem não apenas com cadernos, mas com cor, invenção e riso — exatamente o que o “cabelo maluco” representa.

O argumento econômico também aparece: a brincadeira geraria “gastos para as mães” e uma “disputa entre alunos”. A preocupação soa paternalista, como se o problema fosse o excesso de imaginação, e não a desigualdade que deveria ser enfrentada com políticas públicas, não com proibições.

O “cabelo maluco” não é sobre consumo. É sobre expressão. É o dia em que a escola, geralmente um ambiente de uniformidade, se abre para o improviso e a diferença.

Proibir isso é simbólico. É dizer, em outras palavras, que criatividade atrapalha, que brincar distrai, que a infância deve caber dentro de um molde disciplinado e previsível.

Curiosamente, o prefeito afirmou que prefere investir em parquinhos e brinquedos — como se o espaço físico compensasse a limitação simbólica. Mas de que adianta um parque se a imaginação é cercada por decreto?

A fala de Marcelo Pé revela um equívoco profundo sobre o que é “agregar à educação”. O desempenho escolar não nasce apenas da memorização, mas da curiosidade, da autoestima e da capacidade de se expressar.

Quando uma criança pode transformar o cabelo em antenas, flores, arco-íris ou galáxias, ela está aprendendo algo que nenhum livro ensina: que pode criar o próprio mundo.

Proibir isso é mais do que uma decisão administrativa — é um gesto de controle cultural. É sufocar a liberdade estética da infância em nome de uma moral de “bom desempenho” que só valoriza o que pode ser medido.

A escola, que deveria ser o território da experimentação, vira palco de austeridade. E a infância, mais uma vez, é tratada como algo a ser domado.

Em um país onde a educação sofre com carências reais — estrutura precária, baixos salários e evasão — o “problema” não é o cabelo colorido, mas a falta de imaginação de quem governa.

Enquanto o decreto não sai, as crianças de Antônio João seguem à espera do dia em que poderão voltar a rir de si mesmas diante do espelho — um gesto simples, mas profundamente educativo.

Porque, no fim, talvez o que mais assuste certas autoridades não seja o “cabelo maluco”, mas o pensamento livre que ele representa.

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