Pode o combate à pobreza se confundir com um programa de vigilância social?
Em Bento Gonçalves, o prefeito Diogo Siqueira lançou uma força-tarefa que promete transformar o Bolsa Família em trampolim para o emprego formal. À primeira vista, a ideia soa virtuosa: estimular autonomia, reduzir a dependência e “libertar” famílias do assistencialismo.
Mas por trás da narrativa da emancipação, há uma pergunta menos confortável: autonomia para quem — e sob quais condições?
A proposta consiste em visitas domiciliares a beneficiários, oferta de vagas em empresas locais e acompanhamento até a efetivação no mercado de trabalho. Segundo a prefeitura, a iniciativa já teria diminuído o número de famílias dependentes do programa federal.
Em um país historicamente marcado por desigualdade e informalidade, o argumento da “inclusão produtiva” é sedutor. Trabalhar, afinal, é o que todos desejam.
No entanto, o método empregado revela uma dimensão mais complexa. As visitas “de porta em porta” sugerem mais do que proximidade: sinalizam monitoramento. Quando a linha entre política pública e fiscalização se apaga, a dignidade pode se tornar refém da planilha.
A força-tarefa não apenas oferece empregos — ela também identifica “irregularidades”. O verbo, aqui, carrega peso político. No imaginário público, transforma o beneficiário em suspeito.
E se a política social começa a ser tratada como um teste moral, o resultado é perverso: o pobre deixa de ser sujeito de direitos e passa a ser objeto de correção.
A iniciativa de Bento Gonçalves reflete uma tendência mais ampla no país: a reconfiguração dos programas sociais sob o discurso da eficiência. Sai de cena o Estado protetor; entra o gestor que “otimiza recursos”.
Essa lógica, importada do vocabulário empresarial, parte do pressuposto de que a pobreza é um problema de gestão — e não de estrutura.
Parcerias com empresas locais ampliam o alcance do programa, mas também levantam dilemas éticos. A quem serve, de fato, a força-tarefa: às famílias ou às indústrias em busca de mão de obra barata?
Apoiar a elaboração de currículos e exames admissionais é um gesto nobre. Mas se o destino dessas pessoas é o subemprego, o ciclo da vulnerabilidade apenas muda de endereço.
O discurso oficial fala em independência financeira. Contudo, quando o corte do benefício é imediato após a contratação, o risco é substituir o auxílio por instabilidade.
Autonomia não se impõe — constrói-se com base em políticas duradouras de educação, qualificação e segurança social.
Sem isso, o “resgate da dignidade” pode se tornar apenas um slogan que mascara o esvaziamento do próprio direito de assistência.
O que Bento Gonçalves propõe, portanto, não é apenas uma política local, mas um espelho de um debate nacional: qual é o papel do Estado no enfrentamento da pobreza?
Porque entre o incentivo e o controle, há um limite tênue — e cruzá-lo pode transformar inclusão em coerção.

