Por que, mesmo com artistas, os atos da esquerda em Brasília parecem não empolgar como deveriam

Você já percebeu como alguns protestos com grande aparato artístico conseguem mobilizar multidões em São Paulo ou Rio, mas lá em Brasília ficam distantes, raros, apagados? Essa dissonância entre escala nacional e recepção local revela algo mais profundo que simples logística ou afinidade partidária.

Neste domingo (21/09/2025), manifestações da esquerda ocorreram em diversas capitais contra o PL da Anistia e a PEC da Blindagem. Em Brasília, apesar de artistas como Chico César estarem presentes e de manifestações marcadas, houve um sentimento perceptível de que os atos “não engrenaram” como em outras regiões.

As manifestações na Esplanada dos Ministérios reuniram milhares. Mas o número, o visível nas ruas, foi bem inferior ao que se esperava considerando a força das pautas mobilizadoras. Há uma percepção generalizada de que o discurso da esquerda, embora legítimo para muitos, perdeu frescor para segmentos mais amplos.

Brasília deveria pulsar fortemente nesses protestos: aqui se localiza o Congresso, o Supremo, o Poder Executivo. É o epicentro decisório. Mas justamente essa geografia política parece gerar descoloração — como se as tensões nacionais escorressem nas margens antes de chegarem aos frequentadores assíduos do centro político.

Parte da explicação está no público: Brasília tem um perfil diferente de capitais densas em população, com moradores que trabalham no setor público, muitos deslocamentos longos, rotina pesada, e menos tradição de manifestações culturais de rua que combinem música, arte e política de massa.

Também pesa o cansaço: vivemos numa sucessão de pautas urgentes — anistia, PEC, polarização, desinformação — que se sobrepõem. Quando tudo é urgência, nada parece novo; o público começa a filtrar seletivamente o envolvimento.

A presença de artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil (no Rio), ou Chico César em Brasília, adiciona apelo simbólico, mas não garante adesão massiva. Simbolismo e empatia são diferentes; convocores organizacionais precisam traduzir esse gesto em ações tangíveis para diversos públicos.

Outro obstáculo é a pressão legislativa: as propostas avançam rapidamente, em regime de urgência, com decisões tomadas pela Câmara que repercutem na opinião pública antes que a esquerda possa organizar contrapontos sólidos.

Os atos contra a anistia e a PEC da Blindagem têm pautas que geram indignação, sem dúvida. Cartazes pedindo que o ex-presidente Jair Bolsonaro cumpra pena, gritos como “sem anistia”, “congresso inimigo do povo”. Mas indignação não equivale automaticamente a empolgação.

Empolgação exige narrativa positiva, esperança concreta, mobilização que vá além do protesto. É mais fácil mobilizar contra algo do que por algo que pareça palpável. A esquerda local parece ter dificuldades em projetar para além da crítica — poucos sinais de agenda construtiva além do repúdio.

Há também um componente de branding político: quando a esquerda convoca manifestações com artistas, parte do público questiona autenticidade: será que é “ato político” ou “evento cultural”? Essa dúvida fragmenta volume de participação.

Além disso, o timing pode estar errado. Em Brasília, protestos se iniciaram cedo, concentração sob sol forte; o deslocamento para centros de decisão exige tempo e disposição. Em contraste, protestos à tarde ou em bairros centrais têm curva de adesão diferente e visibilidade maior.

Outro ponto a considerar é mídia local versus mídia nacional. A cobertura de Brasília tende a ser mais institucional, técnica — menos celebratória ou emocional. Isso pode diminuir a percepção pública de que algo “grande está acontecendo”.

Redes sociais ajudam a amplificar, mas também consomem. Memes, vídeos, transmissões ao vivo têm impacto, mas exigem repetição, inovação visual, narrativa que prenda. Brasília não parece ter sido palco de grandes inovações desse tipo, ao menos ainda.

Também há rivalidade interna: partidos, sindicatos, grupos ativistas divergem sobre pautas adjacentes, estratégias, falas. Essa dispersão fragiliza a mensagem unificada que poderia atrair mais gente.

Há quem argumente que a expectativa por resultados práticos — recriação de espaços públicos, políticas implementadas — já está muito alta, e a frustração acumulada reduz a disposição para manifestar-se sob bandeiras que pareçam ainda incertas.

Governantes respondem a isso com retóricas que tentam minar o engajamento: reduzem os protestos a “eventos de esquerda”, “movimentos pagos”, “showmícios”, em vez de tratar demandas como legítimas — o que pode gerar alienação de indecisos.

Do ponto de vista estratégico, a esquerda enfrenta dilema: insistir nas formas tradicionais de mobilização de rua com artistas — que têm força simbólica — ou reinventar mobilização híbrida (digital + territorial) que atinja quem não está acostumado a ir a atos.

Se esse perfil não for repensado, atos de Brasília continuarão a dar impressão de mobilização fraca, mesmo quando os números absolutos sejam razoáveis. O contraste com São Paulo ou Rio se torna ainda maior.

Por fim, há uma dimensão simbólica: Brasília deveria ser o palco onde se vê a convergência entre poder político e voz popular. Quando isso não ocorre, há uma espécie de vazio institucional visível — o centro do poder que escuta menos ruas do que outras capitais.

Essa discrepância entre o que se protesta e o quanto se consegue mobilizar em Brasília aponta para uma crise de interlocução: quem convoca, como convoca, com que mensagem, com que formato — tudo isso pesa.

Se a esquerda quiser que seus atos em Brasília deixem de ser apenas expressão simbólica e se tornem detonadores reais de mudança política, será preciso mais do que artistas e manchetes. Será necessário reconstruir laços de confiança com públicos dispersos, criar narrativas que unam indignação com proposta, presença com sustância.

Porque, no fim, empolgar uma capital política como Brasília demanda mais do que visibilidade; exige relevância sentida — no bolso, no futuro, no cotidiano — para quem mora longe dos holofotes, mas vive as consequências.

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