Policial civil Felipe Marques Monteiro, integrante do serviço aéreo da corporação, deixou o Centro de Terapia Intensiva (CTI) do Hospital São Lucas, em Copacabana (Rio de Janeiro), na última segunda-feira (24), após cerca de oito meses internado. A transferência para um quarto marca um passo importante em um longo processo de recuperação.
No dia 20 de março deste ano, durante operação aérea sobre a comunidade da Vila Aliança, em Bangu, Zona Oeste do Rio, o helicóptero pilotado pela equipe da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) foi atingido por criminosos. Felipe foi atingido por um tiro de fuzil na testa, que perfurou o crânio. O impacto resultou na perda de aproximadamente 40 % da estrutura craniana. Ele foi socorrido em estado gravíssimo.
Levado inicialmente ao Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, ele passou por cirurgia de emergência. Posteriormente, foi transferido para o Hospital São Lucas, onde permanece sob cuidados intensivos desde então.
Durante os meses seguintes, o tratamento exigiu procedimentos complexos: pelo menos três cirurgias e a implantação de uma prótese craniana para reconstruir a área perdida. As primeiras avaliações dos médicos classificavam o estado como gravíssimo, com risco elevado de sequelas neurológicas permanentes.
Apesar da gravidade, Felipe começou a apresentar sinais de reação nos últimos meses. Ele passou a responder a estímulos, movendo membros, abrindo os olhos, o que os médicos apontaram como um avanço “importante”. A evolução desencadeou alívio entre familiares, colegas de farda e profissionais de saúde.
A esposa do policial, Keidna Marques, 43 anos, utilizou as redes sociais para comunicar a mudança de quadro. Em postagem recente, ela descreveu a saída do CTI como “a tão esperada alta” e afirmou que a mudança de setor sinaliza “uma nova etapa de cura”.
“Deixamos para trás dias intensos, difíceis, cheios de medo e incertezas — mas também marcados por fé, cuidado e força. Cada profissional que cruzou nosso caminho contribuiu para que chegássemos até aqui”, escreveu ela. A mensagem, segundo a família, traduz o sentimento de gratidão à equipe médica e ao apoio recebido.
A repercussão do caso ultrapassou o âmbito privado. Muitos colegas de farda, autoridades e cidadãos acompanharam a trajetória do policial desde o momento do ferimento. O caso voltou a destacar os riscos que agentes de segurança enfrentam — especialmente em operações em áreas dominadas por facções armadas.
Em entrevista concedida após o ataque, a esposa relatou que, na noite anterior à operação, Felipe dormiu em uma base da polícia — algo comum. A operação tinha como alvo uma quadrilha acusada de roubo de vans e desmanche de veículos. Na manhã de 20 de março, a missão seguia normalmente até o disparo atingir a aeronave. Nesse dia, ele não enviou sua tradicional mensagem de pouso à esposa — o que gerou apreensão imediata.
Nos primeiros dias após o ferimento, médicos alertaram para o risco de morte ou sequelas severas. A perda de parte significativa do crânio ameaça funções cerebrais essenciais, como coordenação motora, fala e cognição. Mas, gradualmente, a resposta a estímulos e os pequenos avanços reavivaram as esperanças.
A saída do CTI não significa o fim dos cuidados. Agora transferido para quarto, Felipe deverá seguir com sessões de fisioterapia, acompanhamento neurológico e reabilitação intensiva. Segundo a família, a expectativa é manter a fé e a paciência, entendendo que a recuperação será longa.
O episódio reacende o debate sobre a delicadeza e os perigos das operações aéreas e policiais em áreas de alto risco. Perdas humanas, agentes feridos e feridos graves têm se tornado uma realidade frequente nas estatísticas de segurança pública do estado.
Mesmo diante de tanta adversidade, a trajetória de Felipe inspira colegas e familiares. O relato de superação — e de pequenas conquistas diárias — alimenta a esperança de que ele possa retomar parte da normalidade. O gesto de deixar a UTI, embora simbólico, representa um passo concreto nessa direção.
Para a família, cada avanço — levantar um braço, reagir a comandos, apontar para algo — é comemorado como vitória. “O amor cura”, escreveu Keidna em uma das postagens, reforçando a fé na recuperação e na vida.
Para os colegas de corporação, o caso serve de alerta e de exemplo: chama atenção para a vulnerabilidade dos policiais, mesmo aqueles em patrulhamento aéreo, e reforça a importância de proteção, treinamento e suporte médico adequado.
Especialistas em trauma e neurocirurgia consultados por jornalistas afirmam que cada caso de reconstrução craniana é único. A perda de 40% do crânio é considerada uma lesão grave e com risco elevado de sequelas, mas a evolução clínica depende de fatores como resposta ao tratamento, idade, saúde prévia e suporte médico. Neste caso, o avanço perceptível após várias cirurgias e cuidados intensivos surpreendeu a equipe.
Além do aspecto clínico, o caso reacende reflexões sobre o custo humano das operações policiais em zonas de conflito. Ninguém — nem a corporação, nem os criminosos — sai ileso quando tiros cruzam o céu durante ações aéreas. A sociedade observa, assustada, os riscos que os agentes assumem.
Enquanto a recuperação prossegue, familiares, colegas e cidadãos mantêm a mobilização pela recuperação do policial. A expectativa, agora, é de que ele continue respondendo bem aos tratamentos e, quem sabe, retome alguma normalidade no futuro. Mas, acima de tudo, consolida-se o relato de resistência, fé e luta pela vida.
O caso de Felipe é, ao mesmo tempo, um alerta e um símbolo — um alerta sobre os riscos extremos de determinada rotina policial, e um símbolo de resiliência, coragem e esperança. O desfecho ainda é incerto, mas cada pequeno passo até aqui já desencadeou comoção e atenção.

