Quem vigia os que deveriam vigiar? A pergunta, antiga e incômoda, reaparece com força após o afastamento de dez policiais penais da Cadeia Pública de Ceará-Mirim.
A decisão judicial foi cumprida nesta quarta-feira (19), mas o caso começou semanas atrás, quando o ex-jogador de basquete Igor Eduardo Pereira Cabral — preso por tentar matar a então namorada com mais de 60 golpes dentro de um elevador — denunciou agressões dentro da unidade prisional.
O processo corre sob segredo, mas a repercussão do afastamento expôs algo maior do que uma disputa entre preso e agentes: revelou fissuras profundas na estrutura carcerária do Rio Grande do Norte.
Segundo a investigação, Igor relatou ter apanhado pouco após sua transferência. O relato não veio de um preso comum, mas de alguém cujo crime chocou o país e viralizou nas redes, o que sempre cria uma camada extra de pressão institucional.
O afastamento dos servidores não indica culpa, mas sinaliza a gravidade dos indícios. A Justiça não afasta dez policiais penais sem elementos relevantes — e isso, por si só, já diz muito.
A Secretaria de Administração Penitenciária, por sua vez, optou pelo discurso da continuidade: realocou todos para outra unidade, o Complexo Penal Agrícola Dr. Mário Negócio, em Mossoró. A justificativa foi a “incontestável necessidade do serviço público”.
O eufemismo é revelador. A redistribuição evita um vácuo operacional, mas também preserva os servidores da exposição ao escândalo. Trata-se de uma solução técnica, porém politicamente calculada.
Há, no entanto, uma contradição que não pode ser ignorada: como garantir uma investigação isenta se os mesmos profissionais seguem armados, trabalhando e mantendo contato com colegas do sistema?
Esse remanejamento, embora legal, reabre um debate antigo sobre a cultura interna das instituições penais — uma cultura que, muitas vezes, opera com códigos próprios, impermeáveis ao escrutínio externo.
O caso Igor Cabral é emblemático também porque desloca a discussão. Não se trata mais de um preso relatando violência; trata-se de um preso cuja história já estava sob holofotes, o que torna qualquer denúncia impossível de varrer para debaixo do tapete.
A Seap afirma colaborar integralmente, mas a frase, repetida à exaustão em crises anteriores, perdeu a força. O público — e a Justiça — querem mais do que colaboração: querem transparência.
A verdade é que o sistema prisional potiguar convive com denúncias crônicas de violência institucional. Quando um caso explode, ele não cria o problema; apenas ilumina o que já existia.
Nessa história, o ponto mais relevante não está na queda dos agentes, nem na figura de Igor, mas na revelação de que a cadeia pública funciona como um ambiente onde o controle efetivo do Estado é, no mínimo, poroso.
Se a investigação confirmar as agressões, teremos mais um capítulo de abuso. Se inocentar os servidores, restará o retrato de um sistema tão fragilizado que já não consegue distinguir autoridade de arbitrariedade.
De um lado, um preso acusado de um crime brutal. Do outro, agentes sob suspeita. No centro, um sistema que insiste em sobreviver entre sombras.
E a pergunta inicial volta com força: quem vigia os que deveriam vigiar?
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