Petrolífera dos EUA diz a Trump que investir na Venezuela é “Inviável”

Petrolíferas norte-americanas admitiram nesta semana que investir no setor petrolífero da Venezuela é inviável nas condições atuais, desafiando abertamente o apelo feito pelo presidente Donald Trump para que empresas dos Estados Unidos direcionem recursos bilionários à reconstrução da indústria de hidrocarbonetos venezuelana. A declaração foi feita pelo presidente e diretor-executivo da ExxonMobil, Darren Woods, durante encontro com Trump na Casa Branca na sexta-feira (9).

O ponto central do embate girou em torno de um pedido explícito da administração americana para que grandes produtoras de petróleo — incluindo ExxonMobil, Chevron e outros gigantes do setor — desembolsem pelo menos US$ 100 bilhões para restaurar a produção de petróleo na Venezuela, que tem as maiores reservas comprovadas do planeta. Trump vinculou a estratégia à possibilidade de reduzir preços de combustíveis e reforçar a segurança energética dos Estados Unidos.

Apesar das expectativas do governo Trump, Woods sinalizou que a situação atual na Venezuela apresenta riscos legais e comerciais significativos que tornam praticamente impossível atrair um fluxo substancial de capital estrangeiro sem transformações estruturais profundas no país vizinho. “Se analisarmos as estruturas legais e comerciais vigentes hoje na Venezuela, veremos que o país é inviável para investimentos”, afirmou o executivo em um comunicado oficial da empresa.

A avaliação do CEO da ExxonMobil inclui a necessidade de alterações nas leis de hidrocarbonetos venezuelanas, estabelecimento de proteções jurídicas duradouras e um ambiente regulatório mais claro antes que qualquer comprometimento financeiro de grande escala seja considerado seguro. Segundo Woods, a companhia poderia enviar uma equipe técnica para avaliação no terreno, mas sem garantias centrais não há compromisso firme de aporte de capital.

O confronto entre interesses empresariais e ambições governamentais ocorre em um momento de elevada tensão geopolítica entre os Estados Unidos e a Venezuela, intensificada após a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro em uma operação apoiada por forças norte-americanas. A administração Trump tem tratado a situação como oportunidade para consolidar influência econômica na região.

Representantes da Chevron e de outras petrolíferas presentes na reunião adotaram posições mais cautelosas. O vice-presidente da Chevron sugeriu que há potencial para expansão de produção sob certas condições, mas também reconheceu que a perspectiva de investimento total ainda depende de sinais políticos e de segurança mais firmes.

Analistas ouvidos por veículos especializados destacam que o histórico de nacionalizações de ativos estrangeiros pela Venezuela, especialmente as ocorridas nas décadas passadas, ainda alimenta desconfiança entre investidores internacionais, reforçando a avaliação de que um retorno ao mercado venezuelano requer garantias contratuais substanciais.

O presidente Trump, por sua vez, procurou tranquilizar o setor privado ao oferecer “total segurança” às empresas que decidissem investir, inclusive afirmando que o governo dos Estados Unidos garantiria proteção em vez de forças armadas ou dispositivos tradicionais de segurança. A fala procurou reforçar a ideia de que as petrolíferas negociariam diretamente com Washington em vez de com autoridades venezuelanas.

Ainda assim, a oferta de segurança vinculada ao poder executivo americano não foi suficiente para convencer líderes empresariais que esperam mudanças duradouras nas normas jurídicas e político-econômicas antes de comprometer bilhões de dólares. A experiência de expropriações anteriores de ativos da ExxonMobil na Venezuela foi citada por Woods como um motivo para cautela adicional.

A desaceleração temporária da produção venezuelana, que hoje está muito aquém dos níveis históricos, exige investimentos significativos para recuperação de infraestrutura, modernização de refinarias e manutenção de campos petrolíferos — fatores que complicam ainda mais o cálculo de risco dos grandes investidores estrangeiros.

Especialistas em energia ressaltam que, além das questões jurídicas internas, a Venezuela enfrenta desafios macroeconômicos severos, incluindo inflação persistente, sanções econômicas internacionais e incertezas políticas que afetam diretamente a atratividade do país para capital estrangeiro de grande porte. Esses elementos foram citados nos debates entre os executivos presentes na Casa Branca.

O embate entre as aspirações de Trump e as avaliações técnicas das petrolíferas expõe uma divergência notável entre objetivos geopolíticos e critérios estritamente econômicos de investimento. Enquanto a Casa Branca busca posicionar empresas americanas como líderes na retomada da produção venezuelana, executivos enfatizam que decisões estratégicas de investimento devem ser guiadas por condições sustentáveis de longo prazo, não por demandas políticas imediatas.

As tensões também se refletem no mercado energético global. A expectativa de uma possível entrada massiva de petróleo venezuelano na cadeia de suprimentos internacional poderia afetar preços, produção e estratégias de outras grandes nações produtoras — cenário que permanece incerto enquanto as negociações continuam.

Além da ExxonMobil, outras grandes produtoras estrangeiras, incluindo europeias, também avaliaram a possibilidade de investimentos condicionados a garantias jurídicas e melhoria das estruturas comerciais. No entanto, nenhuma promessa de aporte significativo foi formalizada até o momento.

O papel das leis internacionais de proteção a investimentos, acordos bilaterais de favorecimento econômico e mecanismos de resolução de disputas foram mencionados nos debates como instrumentos essenciais para que capital privado considere projetos de larga escala em territórios com histórico complexo, como a Venezuela.

Enquanto isso, o governo Trump tem afirmado que os Estados Unidos permanecerão engajados em esforços diplomáticos paralelos para promover uma transição política estável na Venezuela, o que, em sua avaliação, criaria condições mais favoráveis para investimentos externos.

Representantes empresariais ressaltam que, mesmo diante de incentivos oficiais, a decisão de investir dependerá não apenas de garantias jurídicas, mas também de projeções confiáveis de retorno financeiro, estabilidade do preço do petróleo e perspectiva de mercado global. Essas variáveis continuam a ser objeto de análise detalhada por parte das diretorias das maiores petrolíferas do mundo.

O cenário de incerteza no setor petrolífero venezuelano coloca em evidência a complexidade de conciliar interesses políticos com incentivos econômicos sólidos, destacando que recursos naturais abundantes por si só não garantem fluxo de investimentos em ambientes com estruturas regulatórias frágeis.

Observadores internacionais acreditam que a forma como esse impasse será resolvido pode influenciar decisões futuras sobre investimento em países com reservas de petróleo substanciais, mas com histórico de instabilidade política e econômica.

Em suma, a recente declaração de executivos sobre a inviabilidade de investir no setor petrolífero venezuelano, mesmo diante de estímulo direto do presidente dos Estados Unidos, ressalta a distância que ainda existe entre objetivos governamentais de reconstrução de capacidades energéticas e as exigências práticas do setor privado em termos de ambiente jurídico, segurança e retorno econômico.

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