SÃO PAULO – A noite desta segunda-feira (23) marcou um momento atípico na televisão brasileira. O centro do tradicional programa Roda Viva, da TV Cultura, não foi ocupado por um político em campanha ou por um economista de mercado, mas pela bióloga e pesquisadora Tatiana Sampaio. No centro da sabatina, a polilaminina: a molécula que se tornou o maior símbolo de esperança para a regeneração da medula espinhal no país.
A entrevista, que marcou a estreia do jornalista Ernesto Paglia na condução do programa, trouxe revelações cruciais sobre o futuro do tratamento. A principal delas é o compromisso de que a tecnologia, desenvolvida na UFRJ e produzida pelo laboratório nacional Cristália, seja integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS) tão logo obtenha o registro definitivo da Anvisa.
O Caminho Regulatório: Entre o Rigor e a Urgência
Atualmente, a polilaminina encontra-se na Fase 1 dos estudos clínicos oficiais, iniciada em janeiro deste ano. Esta etapa, realizada em centros como o Hospital das Clínicas e a Santa Casa de São Paulo, foca exclusivamente na segurança da aplicação em seres humanos.
Durante o programa, a Dra. Tatiana defendeu a robustez dos dados acadêmicos obtidos anteriormente, que mostraram uma taxa de recuperação motora de 75% em pacientes com lesão completa — um salto drástico em comparação aos 10% observados na literatura médica tradicional.
Entretanto, a cientista admitiu a possibilidade de um desenho de estudo heterodoxo para as fases seguintes. Diante da gravidade da condição e da ausência de alternativas terapêuticas, cogita-se a realização de testes sem grupo controle (onde alguns pacientes recebem placebo). A proposta, embora polêmica na comunidade científica, visa acelerar o acesso para quem não tem tempo a perder.
A Saturação do “Uso Compassivo”
Um dos pontos mais sensíveis da entrevista foi a judicialização da saúde. A pesquisadora revelou que o excesso de decisões judiciais para o chamado “uso compassivo” — quando o paciente recebe a droga experimental fora do estudo clínico — tem, ironicamente, atrapalhado o ritmo das pesquisas.
“Não é nada confortável participar dessa judicialização. O resultado técnico não é passível de questionamento, mas a pressão sobre o laboratório e a equipe é imensa”, afirmou Tatiana.
O “e daí?” institucional reside na capacidade do Estado de absorver essa inovação. A pesquisadora ressaltou que a perda da patente internacional, causada por cortes orçamentários em governos anteriores, acabou garantindo que a tecnologia permanecesse sob controle de uma empresa 100% brasileira, facilitando a negociação futura com o Ministério da Saúde.
O Fator Tempo: A Janela de 72 Horas
Para que a polilaminina atue como o “mapa biológico” que guia os neurônios, a aplicação deve ocorrer preferencialmente em até três dias (72 horas) após o trauma. Passado esse período, a formação de cicatrizes e fibroses na medula cria uma barreira física que a proteína, sozinha, tem dificuldade de transpor.
A Dra. Tatiana confirmou que já existem frentes de estudo para casos crônicos (lesões antigas), que envolveriam tratamentos prévios para a retirada dessa fibrose antes da injeção da polilaminina. Contudo, para esses pacientes, o caminho regulatório ainda é mais longo.
A ciência brasileira, celebrada no palco do Roda Viva, mostrou que a genialidade acadêmica pode, sim, gerar soberania tecnológica. A pergunta que ecoa após a entrevista é se o Brasil terá a estrutura de reabilitação necessária para acompanhar essa revolução quando ela finalmente desembarcar nas unidades do SUS.

