Quantas vidas podem caber dentro de R$ 480 milhões?
Essa é a pergunta incômoda que ressurge agora, quando o governo cobra de volta o dinheiro do Auxílio Emergencial pago indevidamente durante a pandemia.
Quase 180 mil famílias foram notificadas a devolver os valores.
Por trás da cifra, há uma história que mistura urgência, desespero e falhas estruturais — tanto humanas quanto digitais.
O Auxílio Emergencial foi o maior programa de transferência direta de renda da história recente do país.
Em 2020, em meio à incerteza e ao medo, ele foi também uma tábua de salvação para milhões.
Mas a pressa em fazer o bem pode, às vezes, abrir brechas para o erro.
E foi exatamente isso que aconteceu: critérios frouxos, sistemas frágeis e cruzamentos de dados insuficientes.
Entre os beneficiários indevidos estavam servidores públicos, empresários e até pessoas falecidas.
Enquanto isso, famílias realmente necessitadas enfrentavam filas e cadastros rejeitados.
Agora, o Estado tenta corrigir o passado com o rigor do presente.
Exige devoluções — frias, burocráticas — de valores que, em muitos casos, já se perderam no tempo e na sobrevivência.
A questão vai além da devolução do dinheiro.
Trata-se de um espelho do que o Brasil é quando a emergência encontra a desorganização.
O país mostrou eficiência em distribuir recursos rapidamente, mas não em rastrear sua origem e destino.
A tecnologia que prometia transparência revelou-se vulnerável à desinformação e à falta de integração entre bancos de dados.
Há também o dilema moral: quem recebeu indevidamente agiu de má-fé ou apenas se agarrou à última boia visível em meio ao caos?
A pandemia não testou apenas sistemas de saúde, mas também a ética coletiva.
Cobrar a devolução é necessário — o dinheiro é público.
Mas é igualmente urgente cobrar do Estado a lição que ficou: programas sociais não podem ser improvisados em meio ao desespero.
O episódio expõe a fragilidade da gestão digital brasileira, que ainda confunde volume com eficiência.
Milhões de cadastros aprovados em tempo recorde, mas com um preço que agora vem à tona.
A pressa de ontem se converte no constrangimento de hoje.
E o país, mais uma vez, paga caro pela falta de planejamento que insiste em repetir.
No fim, a pergunta não é apenas quem vai devolver o dinheiro —
mas o que o governo, e a sociedade, vão aprender com o erro.

