O retorno do jornalista e político Acir Filló aos holofotes, impulsionado pelo livro “Diário de Tremembé” e pela série documental, transforma a Penitenciária de Tremembé de um local de reclusão em um laboratório de sociologia criminal e reality show.
Filló, condenado por corrupção a quase 20 anos, usa sua experiência de dois anos e quatro meses na prisão dos famosos para vender não apenas um relato, mas um acesso privilegiado aos bastidores da elite do crime e da política.
A obra não se limita a descrever a rotina; ela revela a complexa dinâmica de poder entre detentos notórios, mostrando como a notoriedade no mundo externo se traduz em capital social e influência dentro das grades.
O ponto mais explosivo de seu relato é o que ele chama de “pacto tácito entre o Estado e presos midiáticos”. Esta é a tese de que há um acordo velado para manter a ordem em troca de um tratamento mais digno e do silêncio sobre as falhas do sistema penitenciário.
Se o relato for verdadeiro, a prisão de segurança máxima funciona como um “apartheid carcerário”, onde o Estado coopera com a notoriedade do preso para evitar crises de imagem e críticas externas.
Filló, com sua experiência de jornalista e político, conseguiu articular informações entre os pavilhões, transformando-se em um mediador e observador interno — um privilégio que a maioria dos detentos jamais alcança.
A repercussão do livro e da série prova que a sociedade tem uma fascinação insaciável pela criminalidade premium. O público quer saber não apenas o que o criminoso fez, mas como ele vive e com quem ele convive.
O comentário final de Filló sobre a série é um toque de vaidade cínica que humaniza o ex-prefeito condenado. Ao criticar a aparência do ator que o interpreta e sugerir Fábio Assunção, ele distrai do crime e reafirma a persona pública.
A sua busca por um ator “galã” e a referência à idade é a prova de que, mesmo na prisão, a política da imagem e a autopromoção continuam a ser a prioridade para o político.
A obra de Filló é um documento valioso sobre a corrupção sistêmica: ele mostra que a corrupção não é apenas um ato de desvio de dinheiro, mas uma cultura de privilégio que se estende até o sistema penal.
A “prisão dos famosos” torna-se, assim, um espelho da sociedade brasileira, onde o status e a fama continuam a ditar as regras de convivência, até mesmo sob a pena de reclusão.
A maior contribuição do “Diário de Tremembé” é expor que a ordem no sistema penitenciário, muitas vezes, é comprada com a moeda da complacência, e não com o rigor da lei.

