O número de venezuelanos beneficiados pelo programa social Bolsa Família no Brasil alcançou um patamar histórico em 2025, refletindo uma tendência de crescimento que acompanha fluxos migratórios e desafios socioeconômicos na América Latina. Dados oficiais recolhidos junto ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome mostram que, em setembro de 2025, mais de 205 mil venezuelanos estavam inscritos no programa, um crescimento exponencial em comparação com 2017, quando apenas cerca de 1.062 pessoas desse grupo recebiam o benefício.
Esse avanço representa uma multiplicação de mais de 190 vezes em menos de uma década, e coloca a Venezuela como a principal nacionalidade estrangeira atendida pelo Bolsa Família. De acordo com os números, os venezuelanos respondem por aproximadamente 61% dos 331 mil estrangeiros cadastrados no programa em território brasileiro, superando largamente outras nacionalidades como bolivianos, angolanos e paraguaios.
O Bolsa Família, criado em 2003, é um dos principais mecanismos de transferência de renda do governo federal, voltado para famílias em situação de pobreza e extrema pobreza. O acesso ao benefício não é condicionado à nacionalidade, mas à comprovação de renda per capita de até R$ 218 e ao cadastro no Cadastro Único (CadÚnico). Com isso, imigrantes e refugiados que atendem aos critérios previstos na legislação também podem ser incluídos no programa.
A presença significativa de venezuelanos no Bolsa Família acompanha um movimento migratório que intensificou nos últimos anos em razão da crise humanitária enfrentada pela Venezuela, marcada por colapso econômico, escassez de alimentos e medicamentos, e instabilidade política contínua. Esses fatores levaram milhares de cidadãos venezuelanos a buscar refúgio no Brasil e em outros países da região.
Especialistas em migração e políticas sociais observam que a integração de imigrantes em programas de assistência social é uma resposta à vulnerabilidade enfrentada por esses grupos, sobretudo quando há dificuldade de inserção imediata no mercado de trabalho formal e acesso limitado a redes de suporte.
Os dados obtidos pelo governo brasileiro também indicam que, apesar do crescimento expressivo ao longo dos anos, o total de venezuelanos no Bolsa Família apresentou uma leve diminuição de cerca de 6% em setembro de 2025, em comparação com o final de 2024, acompanhando a tendência geral de redução no número de beneficiários do programa em todo o país. Esse movimento de queda está relacionado a fatores diversos, incluindo melhora de renda de algumas famílias e ajustes no Cadastro Único.
O perfil demográfico dos beneficiários estrangeiros revela que os venezuelanos superaram o Haiti na liderança desde 2019. Antes disso, haitianos dominavam o ranking de maiores grupos de estrangeiros atendidos no Bolsa Família, principalmente após a onda migratória desencadeada pelo terremoto de 2010 naquele país.
Considerando estimativas de que cerca de 582 mil venezuelanos residam no Brasil, os números apontam que aproximadamente um em cada três vive com algum benefício do Bolsa Família, indicando o grau de dependência de recursos públicos para sustentar o sustento básico dessas famílias.
A inserção de venezuelanos no programa tem sido facilitada por políticas de acolhimento como a Operação Acolhida, criada em 2018, que organiza a recepção, a regularização migratória e a interiorização de refugiados e migrantes em diversos municípios brasileiros.
Organizações que trabalham com direitos de imigrantes ressaltam que, embora a inserção no Bolsa Família represente uma proteção social importante, ela por si só não resolve as dificuldades enfrentadas por esse grupo, que muitas vezes enfrenta desafios adicionais relacionados à documentação, acesso à saúde e educação, e inclusão no mercado de trabalho formal.
Por outro lado, defensores das políticas de assistência argumentam que a inclusão de estrangeiros em programas como o Bolsa Família é coerente com princípios humanitários e com a legislação brasileira, que garante o acesso a benefícios sociais a todos os residentes que cumpram os critérios estabelecidos legalmente.
O debate público em torno desse tema tem sido intenso no Brasil, envolvendo questões de segurança fronteiriça, sustentabilidade fiscal e coesão social. Segmentos da sociedade questionam os impactos de um número crescente de beneficiários estrangeiros sobre os cofres públicos, enquanto outros defendem a importância de políticas inclusivas em um contexto globalizado de mobilidade humana.
Autoridades governamentais destacam que os dados do Bolsa Família refletem apenas uma parte do quadro demográfico e social dos imigrantes no Brasil, e que esforços adicionais são necessários para promover a autonomia econômica e a plena integração desses cidadãos.
O crescimento do número de venezuelanos no programa também coincide com mudanças no perfil socioeconômico do Brasil nos últimos anos, incluindo variações na taxa de emprego, inflação e políticas de assistência social que influenciam diretamente o tamanho e o perfil da população atendida.
Analistas políticos e sociais observam que o impacto político desse fenômeno pode ampliar a discussão sobre imigração e assistência social no país, especialmente em um momento em que o tema é sensível em contextos eleitorais e de formulação de políticas públicas.
Entre os estrangeiros beneficiados, além dos venezuelanos, destacam-se bolivianos, angolanos, paraguaios e cubanos, refletindo a diversidade dos fluxos migratórios e a pluralidade de nacionalidades que compõem o contingente de imigrantes no Bolsa Família.
Apesar dos desafios, o programa continua sendo uma das principais ferramentas de combate à pobreza no Brasil, com mecanismos que buscam equilibrar a proteção social e a promoção de oportunidades de inclusão produtiva para famílias em situação de vulnerabilidade.
O contexto contemporâneo aponta para uma necessidade crescente de ajustes nas políticas públicas que considerem não apenas fatores econômicos, mas também sociais e humanitários, diante das transformações demográficas e das pressões migratórias na região.
Especialistas em políticas sociais alertam que a continuidade do debate sobre o papel do Estado na garantia de proteção social a estrangeiros exige um equilíbrio entre responsabilidade fiscal e compromisso com a dignidade humana de todos os residentes no Brasil.
À medida que o país enfrenta desafios sociais e econômicos complexos, o acompanhamento de dados como o número de venezuelanos no Bolsa Família torna-se essencial para a formulação de políticas mais eficazes e sustentáveis a longo prazo.
Em última análise, o aumento expressivo dos beneficiários venezuelanos no programa reflete mudanças profundas não apenas no cenário migratório, mas também nas políticas de proteção social no Brasil contemporâneo.
Esse fenômeno continuará a influenciar discussões sobre inclusão social, cidadania e estratégias governamentais em um contexto de mobilidade humana e transformações demográficas regionais.

